O que é?
São festas cujo símbolo principal são as aparelhagens, estruturas metálicas eletrônicas com potentes alto-falantes, iluminação personalizada para festas e equipamentos audiovisuais (como painéis de LED), sob o comando geral de um DJ por meio de sofisticados equipamentos de mixagem que tocavam o gênero musical brega. “As aparelhagens são conjuntos personalizados com a estética particular de cada artista, que recebem até mesmo implementos mecânicos para aumentar a performatividade durante as festas” (Araújo et al. , 2022, p. 370).
Esse tipo de festa surge, em Belém, com o nome de “sonoros”, entre as décadas 1940 e 1950, num contexto cultural da periferia e de sujeitos inseridos no circuito informal da economia, refletindo nos materiais de baixo custo usados na estrutura física das aparelhagens e na popularidade entre as formas de lazer. Desde o surgimento, eram vinculadas às festas grupos com denominações próprias organizados de acordo com suas comunidades e/ou bairros, especialmente aquelas onde os DJs exerciam um conjunto de funções, sendo divulgação, organização e execução das festas (Araújo et al., 2022) — esta vinculação permanece até hoje.
Em 1950, surgiram os bailes nas periferias, onde os sonoros eram a principal atração. A partir de 1970, os sonoros passaram a ser aparelhagens, já que os sistemas de som tiveram que ser simplificados, pois as aparelhagens costumavam percorrer diferentes cidades tocando nos chamados “bregões” ou em sedes sociais. “Os moradores das áreas mais pobres da cidade passaram a frequentar tais festas durante os fins de semana, fazendo do brega um dos ritmos mais populares nessas áreas a partir da década de 1980” (Magalhães, 2017, p. 55).
Magalhães (2017) destaca na cartografia acima a relação entre densidade populacional e a presença das festas de aparelhagem, indicando que a localização periférica apresenta como forma de expressão cultural, também, as festas de aparelhagem — não à toa foi identificada na área de estudo deste inventário. As aparelhagens foram importantes para a popularização e evolução do brega no Pará, principalmente porque desde o início da década de 1990, a indústria fonográfica entrou em crise devido à popularização da internet, pirataria física e virtual e o desenvolvimento de novas tecnologias.
No começo dos anos 2000, surge o tecnobrega, uma versão eletrônica do brega paraense, que destacava o ritmo dançante e os efeitos sonoros e visuais usando remixes e manipulação de sons, além das influências do funk carioca e do sertanejo. Do ponto de vista estético e musical, o tecnobrega ganhou expressividade nacional ao incorporar suas características próprias na forma de produção, distribuição e consumo de música no Brasil (Magalhães, 2017).
Dado o reconhecimento cultural que ganharam nas periferias e adjacências, as festas de aparelhagem atingiram diversos nichos sociais, principalmente com os ritmos brega e tecnobrega, tornando-se patrimônio cultural. Araujo (2022) afirma que as festas ganharam espaço no cenário de lazer em Belém:
(…) contornos socioculturais de consideráveis proporções, indo além das definições técnicas, configurando-se como o principal instrumento de execução e divulgação da música brega e tecnobrega no contexto paraense e também como expressão que ajuda a definir os contornos musicais brasileiros para o resto do mundo (Araújo, 2022, p. 373-374).
As festas de aparelhagem são espaços de lazer comumente frequentados pelos habitantes do Beco do Carmo ao Mercado do Porto do Sal. Relaciona-se a permanência deste tipo de celebração à identidade e pertencimento com os espaços nos quais as festas ocorrem, tornando-o familiar e íntimo — característica que permite aos frequentadores desenvolver experiências sociais e pessoais com o lugar, bem como aprofundar as relações culturais.
Relacionado à divisão de classes sociais, destaca-se a mudança de perfil socioeconômico do público: “Às aparelhagens paraenses foram do interior para a capital e colocaram em si os holofotes de eventos onde antes havia uma invisibilização” (Araújo, 2022, p. 383). Os eventos realizados em ambientes financeiramente empobrecidos ganharam aderência em diferentes classes sociais em virtude da ascensão dos DJs como figuram representativas, respeitadas, com capacidade de mobilização e livre circulação em diversos meios artísticos (Araújo, 2022).
Este quadro geral sobre as festas de aparelhagem compreende o contexto no qual os habitantes da área do inventário participativo elaboram sobre esta celebração como parte de suas referências culturais, estabelecendo significância entre as festas e a produção cultural, econômica e social das periferias de Belém.