Palafitas
Onde está?
Em toda a margem do rio definida como território do inventário.
O que é?
É uma tipologia de casa feita de madeira, apoiada em esteios e suspensa do solo sujeito a marés ou alagamentos. As palafitas fazem parte da paisagem da margem do rio, onde a pesquisa foi realizada juntamente com as pontes, também em madeira, que as ligam.
As que são usadas para moradia possuem, em sua maioria, dois cômodos e medem, em média, 3 x 5 m. As de uso comercial variam bastante, sendo que a maior é a que abriga o Bar do Seu Bené que, segundo o proprietário, Senhor Benedito Silva Aragão, mede por volta de 4 × 50 m.
Durante entrevista, o Senhor João José Aires da Silva — Mestre João, conhecido mestre do ofício de construir palafitas, que também atua na carpintaria naval e produção de arte, nos informa que sua técnica construtiva implica no uso de ferramentas próprias e a confecção antecipada de esteios em madeira de aproximadamente 5 metros de comprimento e com terminação pontiaguda de 50 centímetros. Esses esteios, sustentáculos das palafitas, são confeccionados em madeira que guarda resistência à água, como, por exemplo, angelim, maçaranduba, ipê e cumaru. São fixados no solo com a ajuda de cilindros nos quais são introduzidos e recebem batidas de um martelo com roldanas para alcançarem a profundidade suficiente para garantir a segurança da casa que sustentarão.
A determinação da distância entre o solo e o assoalho implica no conhecimento das marés, que depende da observação e pesquisa de quem constrói a palafita, uma vez que pode mudar ao longo dos anos. Motivo pelo qual se costuma respeitar uma margem de segurança para garantir que a água não alcance o piso da casa.
O assoalho assentado nos esteios, em geral, não é feito na mesma madeira. São usadas madeiras como sucupira, cupiúba e anani com o cuidado de secá-las para não diminuírem de tamanho depois que a casa estiver pronta. As paredes são feitas com dois lados, um de fora e um de dentro da casa com tábuas de 14 cm de largura e macheadas, que se encaixam uma na outra. São sustentadas no assoalho e por anéis em madeira que envolvem toda a casa nas alturas das janelas, um abaixo e outro acima. As coberturas são feitas de “telha Brasilit”, sendo telhas onduladas de cimento com fio sintético. Houve um tempo em que as palafitas eram cobertas de palha, o que mudou por contingências do ambiente urbano e administração dos custos.
Uma palafita, ainda que feita com madeira menos resistente, tende a durar pelo menos 10 anos. Se for feita com materiais de alta qualidade pode durar até 50 anos, segundo Mestre João. Já o Sr. Bené nos diz que a média de duração de uma palafita é de 20 anos por requerer manutenção periódica e constante em sua estrutura, que é como se fosse reconstruída nesse tempo. Nos diz também que essas casas são impactadas pelas marés do rio e pelos resíduos sólidos, chamados por Seu Bené de “lixo”, que elas trazem.
O ofício de construção de palafitas não vem sendo passado, de forma regular, para novas gerações por desinteresse e também pela inviabilidade econômica de se manter um aprendiz. Embora haja interesse de profissionais como Mestre João.
As palafitas, no território inventariado, foram construídas em terreno de marinha e representam uma forma de resistência da população que se mantém morando no centro histórico, apesar dos processos de gentrificação observados na cidade. Os custos da moradia mostram-se viáveis aos grupos sociais e as facilidades decorrentes da proximidade dos serviços da cidade são fatores determinantes. Eduarda da Silva Valente, neta do Seu Bené, nos relatou benefícios de morar em uma palafita localizada na beira da Cidade Velha:
Porque aqui você tá perto do ver-o-peso, perto do shopping e tudo tudo tudo tudo na parte de serviço, né? Se quiser viajar tem também o porto aqui perto. Então, tudo mais, e quiser ir numa feira, a gente não tem vontade também de sair, né?
Finalizando, a palafita, como alternativa de tipologia de casa em comparação com a de alvenaria, tem a preferência dos participantes do inventário, tanto por seu conforto térmico quanto pelo que Seu Bené nos disse: “Eu vou lhe falar uma coisa aqui. Aqui nós aqui nessa área. É melhor de maneira, ela é assim tipo artesanal que já mexe com a Amazônia, né?”
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