01 Comunidade Cedro Novo
Onde está?
Área Federal do DNOCS - Açude Público Cedro (Quixadá - CE)
O que é?
O Cedro Novo é uma comunidade centenária situada na área federal do DNOCS (Quixadá-CE), onde também estão o Açude Cedro, construção icônica de combate à seca projetada no período imperial, a Pedra da Galinha Choca, famoso monólito (inselberg) com formato inusitado e diversas instituições de ensino. Os antepassados dessa population residente aí se fixaram desde as primeiras décadas do século XX, como relata o morador Isael Silva: “não somos invasores, estamos aqui de geração a geração desde os nossos tataravós!”. Do mesmo modo, complementa o vizinho Robério dos Santos: “dizem que a gente vive aqui como invasor, mas aqui são moradores que integram o Cedro Novo há muito tempo, somos idôneos e sinceros, famílias centenárias”.
Os residentes à jusante do Açude Cedro estabeleceram-se em lotes que outrora possuíam infraestrutura de irrigação via canais do DNOCS, já aqueles à montante, praticam plantações de sequeiro e vazante, criações de animais e pesca. Diante disso, o relato da moradora Ângela Queiroz destaca: “nosso lugar, um pedacinho de cada coisa importante para a gente morar aqui; choramos só de pensar em sair das nossas casas”. O conjunto das moradias que compõem o Cedro Novo está diretamente vinculado aos sentidos de coletividade, lar, família e laços afetivos de vizinhança. E cada uma das casas é um local pleno de significados e experiências vividas em um tempo longamente compartilhado, numa sociedade rural enraizada: os loteiros do DNOCS e seus herdeiros. Como afirmou Robério dos Santos: “aqui é um patrimônio das famílias, desde nossos antepassados”.
Os moradores relatam sentimentos que podem ser associados a uma cultura camponesa, profundamente inserida naquele território, lugar de vida e de trabalho, como definido por Wanderley (1999). De fato, aí se desenvolve uma forma de sociabilidade específica, onde todos se conhecem: familiares, parentes, vizinhos. Tal relação permite definir a comunidade enquanto uma “sociedade de interconhecimento”. As casas da comunidade, por conseguinte, apresentam uma dupla natureza: são as sedes dos modos de vida dos loteiros e valorização de um meio natural, mas ao mesmo tempo representam unidades de habitação e de um quadro familiar e social único. A ligação entre morada e modo de vida fica patente no depoimento de Danilo Lima da Silva: “o melhor aqui é a moradia e o açude cheio. Todos sabiam pescar, pescavam camarão com armadilha, covo fabricados por eles”.
Portanto, os lares e seus ocupantes têm um papel ativo na formação da identidade do Cedro Novo, que emerge a partir do sentimento de pertencimento ao lugar. Isto se expressa na fala de Dona Geralda Vanda: “Ixi! Isso aqui era de meu pai, já tem mais de 100 anos. Passa de família para família, de pai pra filho e para os netos…É assim. Eu nasci e me criei aqui. Essa notícia [ter de sair da casa e abandonar o Cedro Novo] acaba com a gente”. A existência da comunidade do Cedro Novo há muito habitando o local e vivendo de modo semelhante reforça a ideia de preservação do ambiente através das gerações, conectando-as ao ideário de acolhimento, zelo, paz e tranquilidade. “Estamos aqui já na terceira geração, e a gente vive daqui, de agricultura e turismo. E aqui somos famílias, pessoas que moram há muito tempo, tem velhos, crianças, pessoas idosas… Nós não somos pessoas que vem…invasor não! Somos morador, filho da terra. Nasci, estou com 50 anos, nasci e me criei aqui, estudei num colégio aqui e vivo aqui até hoje”, relata Roberto dos Santos. As moradias estão vinculadas aos ciclos de vida de cada família, havendo relatos de memórias afetivas e tradições de um modo de vida que fazem com que o ambiente seja único e insubstituível, com destaque para o sentimento de paz e segurança, como aponta Roberto: “é um local onde a gente se sente seguro e à vontade, sempre de portas abertas, é um sossego”.
Daí se compreende porque os loteiros temem a sua remoção, pois mesmo que sejam realocados, nunca poderão reviver a profunda conexão de habitar que apenas o Cedro Novo, em suas casas, lhes proporciona. Essa ligação única com o lugar transcende a simples moradia; é um sentimento enraizado na história comunitária, algo que não pode ser replicado em outro espaço.
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