O que é?
No Nordeste do Brasil ainda é comum o uso de uma técnica de arquitetura em terra e estacas, conhecida como taipa ou pau-a-pique, que consiste no uso de um arcabouço trançado de madeira, preenchido com argila, para erguer paredes. É provável que sua introdução remonte ao período de colonização pelos portugueses, que a teriam trazido de África (SILVA, ALCIDES e JARDIM, 2013, p. 88). As famílias do Cedro Novo há muito tempo conservam o saber e a tradição de fazer casas de taipa. Dona Mazé Almeida, 86 anos, que já nasceu na comunidade, relata: “... esta casa foi herança de minha mãe que já herdou de minha avó ”. A fala demonstra a durabilidade da técnica, bem como a passagem geracional - não só de um patrimônio enquanto bem econômico, mas da continuidade cultural. A rusticidade do material e da técnica parecem testemunhar o esforço da comunidade para se manter em áreas não assistidas por edificações e infraestruturas do DNOCS ou prefeitura local, como é mais comum à montante da parede sul.
Ao olhar as construções das casas que seguem do Bar da Mangueira até o início da trilha da Galinha Choca, margeando o Açude Cedro, observa-se suas singularidades: algumas são tão bem rebocadas que não se percebe terem sido erigidas de forma rústica; apenas quando parte do acabamento cai é que são exibidos os intricados de madeira e terra. Nesse trecho à montante da barragem, casas de alvenaria não são permitidas pelo DNOCS, o que faz os moradores conservarem suas habitações de taipa, mesmo que com alguns “puxadinhos” de alvenaria. Quando necessário, são feitos reparos com materiais comprados no centro da cidade, sendo isso de responsabilidade dos próprios moradores.
Fazer casas de taipa requer saberes sobre os tipos de solo, já que o barro usado na construção deve ter uma qualidade específica. Além do mais, devido ao terreno pedregoso, repleto de matacões, o local precisa ser bem escolhido. Isa Nunes, que juntamente com o esposo Fábio Pinheiro, reformaram a casa herdada de um familiar, cita uma relação singular com os recursos naturais das vizinhanças, uma vez que há um local específico para coletar o material: “não é de qualquer canto, tem um barreiro, um local próximo ao açude em que pegamos o barro”. O mesmo pode ser dito das madeiras, suas propriedades e conformidades para o entrelaçado, que são tiradas da vegetação nativa. Portanto, tal técnica da arquitetura popular sertaneja é integrante de um sistema de construção vernacular, “que une o conceito de cultura e natureza provocando noções de identity e senso de pertencimento” (FEITOSA; GALEAZZI, 2022, s/p.).
Foram registradas cerca de dezessete construções de pau-a-pique que têm por características calçadas altas, paredes bem conservadas, pintadas a cal e pisos de cimento queimado. A madeira das casas mais antigas é “do mato”, “madeira bruta” coletada na caatinga. Feitosa e Galeazzi (op. cit) advertem que a arquitetura de terra crua sertaneja tem sido vista como símbolo de pobreza e doenças, pois seriam infestadas por insetos, o que tanto para os autores como para o grupo do inventário participativo é uma visão estereotipada e estigmatizante, pois havendo correta manutenção, como constatado no Cedro Novo, não significa que as construções sejam insalubres ou retratem miserabilidade, tanto que os moradores apontaram como uma importante referência cultural, plena de significados sobre sua história, suas lutas e afetos.