Plantio de roçados
Onde está?
Área Federal do DNOCS - Açude Público Cedro (Quixadá - CE)
O que é?
A Comunidade Cedro Novo está fortemente ligada à pesca e à lavoura familiar. Neste contexto, os roçados são parte de um saber ancestral que compõe a identidade dessa população, que, mesmo não praticando exclusivamente a agricultura como no passado de loteiros do DNOCS, ainda se identifica como lavradores. O roçado sertanejo expressa a rica experiência de habitantes da caatinga com a convivência com o semiárido ao longo dos anos, bem como sua resiliência nos tempos difíceis de seca (MACIEL; PONTES, 2015). De modo amplo, a roça ou roçado se refere a áreas cultivadas com espécies alimentícias e pequeno criatório, especialmente por produtores familiares, com ou sem uso de coivara (queimadas controladas) para limpar de forma cíclica porções de terra. No contexto patrimonial, o fenômeno congrega saberes e maneiras de cultivar os campos ou de criar animais, profundamente vinculados às relações da sociedade com o meio ambiente, de tal maneira que se torna associado a determinadas culturas e modos de vida adaptados à semiaridez.
Assim, o roçado sertanejo significa mais que simples práticas agrícolas, sendo parte integrante da cultura e identidade dos camponeses que povoam as caatingas no entorno do Açude Cedro e atribuem significados aos seus espaços de vida e produção. Desse modo, tais paisagens conservam características rurais, ainda que o local seja incorporado como um bairro da cidade de Quixadá. Senhor Chico Preto, 81 anos, um dos moradores mais antigos, conta que seu avô trabalhava com a agricultura nessas mesmas terras, na época em que era muito criança, mas ainda conserva lembranças da fartura de frutas produzidas na região e do deslocamento até o centro da cidade para a comercialização: “eu ia escanchado na cintura dele até o local da venda”, demonstrando a socialização, desde muito cedo, dos integrantes da família no contexto dos roçados.
A agricultura aí praticada tem um papel importante na formation da comunidade, por estar localizada entre um complexo de formações rochosas e às margens do Açude Cedro, onde técnicas de plantio ganham características próprias do local, utilizando ferramentas tradicionais como pequenos arados, enxadas, roçadeiras etc. Moradores relatam que o plantio era feito em locais que tinham ou ainda têm a autorização do DNOCS, sendo cobrada uma taxa para uso da terra. À jusante do barramento sul ficavam lotes irrigados, enquanto a montante estão os chamados “lotes secos”, isto é, sem infraestrutura de irrigação, mas com acesso às margens do açude. Neste último caso, as roças de cada morador seguem a dimensão do lote e incluem acesso a uma área de vazante (porção de terra que fica descoberta na medida em que há redução do nível da água do açude no período de estio). Os lotes secos são geralmente separados por cercas de arame farpado e apresentam morfologia de tiras de terra que ligam as residências dos agricultores ao corpo hídrico, democratizando o direito à água.
A produção de alimentos nas imediações do Açude Cedro sempre foi uma prática relevante por ter disponibilidade de água e solo fértil, entretanto mesmo as áreas de sequeiro foram costumeiramente lavradas, havendo muitas pessoas que rememoram os campos de algodão que cercavam a Pedra da Galinha Choca. Muitos aspectos da roça, incluindo a policultura (sistema agrícola marcado pela produção de várias espécies) têm relação com a agricultura indígena e quilombola, havendo importante papel das sementes crioulas para a resiliência ao clima e segurança alimentar. Estudos indicam preservação genética de espécies selecionadas ao longo do tempo no sistema de roça, onde apresentam viabilidade e produtividade mais adequada ao modo de produção de comunidades adaptadas aos seus ambientes (YOGI, BERTAZZO E ALENCAR, 2016, p. 105).
O sistema da agricultura familiar tem como características a produção de pequeno porte, baseada na alimentação do grupo de parentesco, comercialização do excedente e uma safra diversificada, como relata a moradora Isa: “plantamos de tudo: milho, feijão, batata doce, jerimum, macaxeira. Antigamente plantava o ouro branco – algodão – e a paisagem ficava branquinha”. Hoje os loteiros do Cedro Novo cultivam mais para autoconsumo, uma vez que não dependem apenas da lavoura para sobreviver e possuem limitado acesso à terra; algumas famílias conservam nos quintais frutíferas, hortaliças, plantas medicinais e ornamentais, animais de pequeno porte etc. Nos terrenos a jusante da barragem há capineiras e criação de gado.
A mudança no modo de vida devido à desassistência do órgão federal levou a várias formas de atividade complementar não-rurais, como atesta a moradora Cláudia: “o mais importante são os saberes das pessoas mais idosas, pois é delas que se mantém a cultura do lugar; se não fosse elas, estaria tudo destruído: pescar, plantar, criar animais, fazer o roçado, trabalhar nos quiosques com alimentação. Mesmo com dificuldade, são nossas formas de renda, hoje não vivemos mais somente das coisas da terra, agora é mais lidar fora, com faxina, emprego e salgados para vender nos quiosques”. Portanto, a pequena escala produtiva atualmente se deve ao abandono da assessoria técnica do DNOCS, ao êxodo rural da população jovem e à realização de trabalhos não agrícolas dentro e fora da comunidade visando obtenção de renda.
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