O que é?
A pesca artesanal, tradicionalmente praticada nos açudes do semiárido brasileiro, tem sido uma atividade importante para a subsistência e renda de famílias no meio rural (MONTEIRO, NORÕES E ARAÚJO, 2018). No Ceará é diferente, onde açudes do DNOCS receberam programas de peixamento para favorecer a atividade. O ofício desse tipo de pesca no Açude Cedro, associado historicamente à agricultura e a papéis de gênero (WOORTMANN, 1992), transcorre pela produção própria de parte dos instrumentos para captura de peixes e camarões, como também pela guarda de conhecimentos acerca das espécies, iscas e melhores épocas para captura, além do processamento dos alimentos, que são passados de geração em geração. A forma de construir, consertar e utilizar as redes e covos, o reparo das canoas e a escolha das malhas dos galões (redes) formam um conjunto de saberes dominados sobretudo pelos homens. As mulheres também expressam esse saber ao usar as tarrafas para praticar a pesca e manusear canoas.
O Cedro Novo, por se tratar de uma comunidade que vive às margens de um expressivo corpo hídrico, tem na pesca uma de suas alternativas econômicas, mesmo considerando as secas e a descontinuidade de políticas públicas que a favoreçam. Essa prática criou nos homens e mulheres a habilidade de lidar com o espaço e o meio ambiente, as ferramentas, utensílios e técnicas da atividade pesqueira, criando significados sociais. Assim, o trabalho artesanal de pescaria pode ser caracterizado como uma atividade familiar realizada com instrumental simples, baseado na busca por autonomia alimentar e, quiçá, complemento de renda, que preenche o espaço da comunidade com múltiplos significados e memórias.
Seu Roberto dos Santos, cita uma espécie de mutirão: “todos nas casa participa da pesca, se tiver dez pessoas os dez ajuda”. A captura de camarão, por exemplo, envolve toda a família já que requer muitas etapas, da apreensão à limpeza, sendo o verão a melhor época para ser realizada, em função do baixo nível das águas. Os conhecimentos em torno da pesca são repassados para os mais novos de forma prática: “ a gente nasceu os dentes pescando nesse açude”. Outra moradora, Iza, cita: “ desde os nove anos de idade que aprendi a pescar ”. A comunidade demonstra uma relação afetiva com o açude e a pesca, as mulheres muitas vezes se juntam aos homens e ‘lanciam’ as tarrafas e galões na água.
A moradora Cláudia acrescentou que, há mais de 20 anos, os dias começavam às quatro horas da manhã para os homens pescarem peixes e camarões no Cedro. A seguir, as mulheres preparavam os pescados para a venda como uma fonte de subsistência. Entretanto, opinou que atualmente há menos pessoas interessadas nesse trabalho.
As técnicas de fazer o covo à mão e com a matéria prima local são partes de saberes geracionais. O modo de fazer, as medidas, a escolha dos materiais, tais como os talos secos de carnaúba, os tamanhos uniformes, a tela usada para colocar as iscas, a abertura e saída das armadilhas são conhecimentos transmitidos às crianças. O saber-fazer empírico facilita o trabalho dos pescadores, desde a confecção de apetrechos até iscas com arroz e restos de carne.
Outro saber é a costura de remendo dos galões e tarrafas que são usados na pesca, com uma agulha específica e linhas de náilon. Comumente, a canoa também passa por um processo de impermeabilização que é feita com piche ou outro material, usando-se ainda tintas e vernizes para dar durabilidade à madeira das embarcações. Para os moradores a melhor época de pescar é no verão, já que no inverno o aumento do nível da água e diferenças de temperatura dificultam a captura das presas, além de ser a época da reprodução, havendo respeito ao período de defeso. Enfim, homens e mulheres tecem relações afetivas com o ambiente aquático e suas margens, que além de prover alimento e renda contribui diretamente na construção das identidades do Cedro Novo.