O que é?
Os galpões constituem duas grandes construções localizadas próximos das residências da Comunidade Cedro Novo e vinculam-se diretamente à história das pessoas que ali residem. São Edificações de alvenaria e pedra, datadas do período em que foram realizadas as obras de construção do Açude Cedro (virada do século XIX para o XX). Sua finalidade inicial era o armazenamento de materiais e equipamentos de engenharia, tendo sido usados ocasionalmente como alojamento de trabalhadores. Aliado a seu passado longínquo, perdura uma crença de que esses locais seriam senzalas para escravizados que, supostamente, trabalharam na obra da barragem, questão já refutada (MONTEIRO, 2020).
Acredita-se que os trabalhadores enfrentaram condições análogas às de escravidão, às vezes, em troca de alimentos (CRUZ, 2006). Sobre essas condições, relata Monteiro (2020) que os serviços eram mal pagos, mesmo assim, em 1889, milhares de retirantes da seca se deslocaram para a cidade de Quixadá, esperando obter alimentos e ocupação, o que alarmou as autoridades. Temiam-se revoltas contra os precários modos de vida nas obras do reservatório, como de fato chegou a ocorrer. Um dos engenheiros, Jules Revy, certa vez se posicionou como negociador entre os retirantes insatisfeitos e chefes locais, tentando evitar uma rebelião geral. São histórias que deixam margem na questão da existência de mão-de-obra escravizada que perdura até hoje no imaginário popular. Atualmente, os galpões contém peças de maquinários utilizados na época de construção do açude, porém em estado precário, desgastados pelo abandono a que todo o complexo de Edificações tem sido relegado.
Para a comunidade, o significado especial não está ligado somente à história construtiva dos galpões. As Edificações constituem memórias coletivas para os habitantes, que mostram indignação com o abandono de órgãos que deveriam cuidar dos dois prédios. Segundo Isael Silva, presidente da associação dos moradores: “os galpões são a entrada do Cedro, [causam um] impacto de monumento pela sua arquitetura; um dos cartões postais; eles trazem toda a história dos antepassados. O impacto de antigamente, mas que hoje o impacto é outro pelo fato do seu abandono; o descaso do DNOCS; causa até um pouco de raiva na comunidade o poder público não olhar para esse lado”.
Entre os relatos, foi destacada a importância dos galpões como porta de entrada simbólica para o complexo do Cedro. O presidente da associação de moradores, Isael, comentou: “É em frente a eles que os visitantes estacionam os carros, ônibus e até as equipes de TV”. A comunidade reforçou o valor histórico e afetivo desses espaços, que precisam ser cuidados e preservados, reconhecendo, portanto, o potencial dos galpões como ponto de recepção e memória viva do Cedro Novo. Outras histórias relativas às construções impressionam: na interseção dos dois galpões havia uma capela católica em homenagem a São José onde aconteciam celebrações comunitárias, inclusive batizados e casamentos, como relembrou Fábio Pinheiro. Lá também era um espaço para brincadeiras das crianças, seja nos arredores ou dentro dos mesmos, marcando uma geração que tinha identificação para com essas construções. O segundo galpão, mais próximo da Parede Sul do Cedro, é conhecido localmente por “vilinha” e abrigou dezenas de famílias que foram removidas pelo DNOCS sob a promessa de recuperação das instalações - o que ainda não foi feito - motivando tristeza e desconfiança dos moradores. Para a comunidade, tais estruturas compõem tanto marcas históricas da construção do Cedro quanto das memórias remetidas às suas trajetórias familiares.