O que é?
A barragem do Açude Cedro, projetada após longas disputas políticas e científicas (MONTEIRO, 2012), consiste em vários diques, seja de alvenaria ou de terra revestida com grandes blocos de rochas. O açude conta com quatro barramentos identificados, sendo eles: central, norte, sul e sangradouro (vertedouro). Os moradores do Cedro Novo destacam em suas falas o central (chamado de Parede Grande) e o sul (denominado de Parede Seca).
A Parede Seca, barramento lateral que complementa a barragem principal, é uma das construções de terra e granito situada na extremidade meridional do conjunto de obras, sendo um dos caminhos para acessar a trilha da Galinha Choca, através da Comunidade Cedro Novo. Em geral, tem passado a maior parte do tempo sem contato com o espelho d’água, visto que nos últimos anos o Açude Cedro não conseguiu armazenar grande volume hídrico.
Esse lugar representa muito para a comunidade, visto que é o acesso principal à parte dos lotes, sobretudo àquelas casas que estão perfiladas da barragem até o início da trilha da Galinha. Apresenta um formato de trapézio, coberta por gramíneas. À montante tem áreas usadas na agricultura de vazante e pasto, uma vez que as estruturas de irrigação (canais, comportas, etc.) foram apenas instaladas à jusante do complexo hídrico. Os moradores costumam percorrer a barragem sul como parte dos seus trajetos diários. Além disso, Cláudia relembrou um hábito da época em que as águas do Açude eram essencialmente o suporte da sua sobrevivência por oferecer peixes, camarões e agricultura de vazante: quando a “lua estava clara” (lua cheia), as pessoas se reuniam para jantar peixes no topo da edificação, sendo um momento de encontro e lazer. Cotidianamente, a Parede Seca estabelece uma relação afetiva significativa para a comunidade, uma vez que os moradores transitam e utilizam esse espaço para suas atividades diárias. Além disso, foi relatado que essa barragem é menos visível para turistas, geralmente concentrados na Parede Principal. Visitantes atravessam a barragem Sul somente com o intuito de realizar a trilha da Galinha Choca.
A Parede Central, plena de adornos e feições estéticas que logo atraem o olhar turístico, está mais distante física e simbolicamente dos moradores, apesar do seu requinte arquitetônico. Ainda assim, a Parede Grande, como também é conhecida pelos moradores, é um símbolo de admiração e um dos pontos turísticos mais visitados de Quixadá. Segundo Silva (2020, p. 13) “a parede principal tem formato de arco em alvenaria de pedra que é apoiado sobre dois monólitos no local onde ficava o antigo leito do curso do rio Sitiá (rio intermitente da região)”. É feita de alvenaria, com varandas de arabescos com ferro importado da Inglaterra (SALES, 2021).
A Parede Grande assume uma função significativa para a comunidade, já que a partir dela é possível visualizar uma parte do Cedro Novo com casas no sopé dos monólitos e enquadradas pela Pedra da Galinha Choca. Nas palavras de Dona Reijane Queiroz: “ Quando vamos fazer caminhada na parede sempre ficamos olhando a comunidade de lá, pois tem a vista para as casas e é como olhar para um espelho. Gostamos de ver o pôr do sol da parede grande, diferente todos os dias”. No ângulo oposto, a apreciação estética também toca os moradores, o que fica evidenciado na fala de Isael quando afirma emocionar-se ao lembrar de quando se sentava nos lajeiros para observar o paredão do Açude Cedro iluminado à noite, mesmo nos tempos em que não havia energia elétrica nas moradias da comunidade. A construção, iniciada em 1890, representa muito para cada morador. Isael Silva relata a admiração que tinha das luzes que iluminavam o percurso da barragem principal: “na época, nossas casas não tinham luz e eu gostava de ficar olhando para as luzes da parede”. Esse lugar desperta muitas lembranças que são relatadas pela comunidade que zela pela conservação e manutenção do local. As duas estruturas, apesar de não terem sido construídas de maneira direta pelos atuais moradores, são ressignificadas a partir dos modos de olhar: da Parede Grande, é possível aos moradores observarem a comunidade ao sopé dos monólitos; da Parede Seca, eles vivenciam um cotidiano de quem transita de jusante a montante da grande barragem.