O que é?
O Desterro transborda arte e cultura. A concentração de artistas e ateliês de artes visuais demonstra que o bairro é muito buscado para este fim. Ao visitar os artistas e seus ateliês, compilamos relatos de vários filhos de migrantes que aprenderam ofícios artísticos na capital e se fixaram no Desterro, uma vez encantados pelo bairro; artistas que viajaram para outros estados em busca de melhores condições de vida e voltaram anos depois. Há aqueles artistas e artesãos que se inspiram no Desterro para proporem suas obras. Alguns atingiram sucesso em âmbito nacional, outros são reconhecidos localmente, mas todos exprimem elevada contribuição para que assim o Desterro seja notado.
Um desses casos, Robson Miguez (in memorian), multiartista, autodidata, escritor e pedagogo, representa a arte contemporânea no Desterro (Figura 35). Ele já esteve na Bienal de Arte de São Paulo, cidade na qual morou por anos, regressando para o Maranhão, São Luís, onde faleceu em seu ateliê, no Desterro, em 29 de dezembro de 2025. Robson fundou a Companhia do Boi Vermelho, juntamente com outros seis integrantes moradores do Centro Histórico. Robson era quem compunha as toadas e produzia as vestimentas pintadas à mão. Ele também escreveu “Teatro do absurdo” (Miguez, 1997), um livro de poesia. Em entrevista, nos contou que na sua infância participou de um “Boi de criança”, no Desterro, organizado pela sua saudosa professora Itací.
Por sua vez, Beto Lima, natural de Araioses-MA, veio para São Luís em 1978, aos 18 anos. Teve ateliê de pintura na Praça João Lisboa, bairro Centro, por 31 anos, e há 6 anos transferiu seu ateliê para o Desterro. O pintor já morou na Itália e muitos anos em São Paulo. Em entrevista, comenta orgulhoso que suas obras estão espalhadas por diversos países. A inspiração preferida para suas telas encontra referência na saudosa área da Praia do Desterro, quando o mar costeava o bairro antes do aterramento do rio Bacanga e podia ser ver no alto a fachada branca da Igreja do Desterro. O artista costuma retratar esse tempo nostálgico por ângulos diferentes, como é possível perceber em distintos quadros em seu ateliê.
Artista plástica, Marlene Barros Ribeiro, de nome artístico Marlene Barros, é formada em Desenho Industrial, pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), nascida na cidade de Bacuritiba-MA. Marlene desenvolve obras com vários tipos de materiais, como cerâmica, barro, crochê, gesso, ferro fundido, entre outros, produzindo telas e esculturas. Apesar de não residir no Desterro, escolheu se fixar profissionalmente no bairro, onde trabalha diariamente em seu ateliê com uma equipe de pessoas que também recebe e guia os visitantes. Seu ateliê ainda abriga exposições de outros artistas e desenvolve eventos culturais, como performances e contação de histórias.
Já Paulo Cesar Alves de Carvalho, conhecido como Paulinho, azulejista e residente no Desterro, é docente do departamento de Artes Visuais da UFMA, e relembra que, assim como ele, muitos dos artistas e artesãos iniciaram suas carreiras na escola de formação Casa do Artesão (com oficinas de tapeçaria, fibra de buriti, marchetaria, coco babaçu, azulejaria, cerâmica, restauração de móveis antigos, produção de candelabros, entre outros), fundada na década de 1970. Esta iniciativa foi responsável por uma geração de artistas no Desterro, como rememora Paulinho: Toinha que fabricava cerâmica e passou a trabalhar com azulejo; Duda que trabalha com mosaico; José Fernandes que trabalha com azulejo; além de pessoas que trabalham com o carnaval, na escola Flor do Samba. Com a criação do CEPRAMA (Centro de Comercialização de Produtos Artesanais do Maranhão), na década de 1990, a característica de uma produção artesanal e artística, como acontecia na Casa do Artesão, foi substituída por uma produção em massa voltada ao turismo - embora haja artesãos que fazem um trabalho diferenciado, de acordo com Paulinho.
Filho de pais piauienses que migraram para o Maranhão a convite de um tio que trabalhava com restauração de móveis em São Luís, Paulinho morava no bairro de Fátima e diz que se apaixonou pelo Desterro por volta de 1974, quando decidiu se mudar para o bairro. Paulinho considera que as ações político-partidárias nas quais o bairro do Desterro se envolve na barganha por reconhecimento de suas arte e artistas acaba por apagar a memória do bairro, fortalecendo apenas alguns poucos que precisam se posicionar de acordo com as regras do financiador de eventos pontuais. Isso acirra a competição cultural entre a própria classe e amigos que convivem no Desterro.
Muitos dos artistas formados pela Casa do Artesão, vários também migrantes, formaram um coletivo e ocuparam um casarão em frente ao largo da Igreja do Desterro. Ainda assim, Paulinho comenta sobre a carência do Desterro em organizar uma união dos artistas e artesãos para que se alcance um trabalho realmente em grupo. De fato, ali se nota um plástico potencial artístico, dado pelas pessoas artistas, ateliês e apreciadores que se valem da paisagem e inspiração do Desterro.