O que é?
A proximidade do Desterro com o mar até a década de 1980, antes da obra do aterro do rio Bacanga (Figura 36), possibilitou uma série de atividades produtivas e culturais. A paisagem, mesmo hoje, exprime indícios desse momento. Esta área, conhecida como Portinho (ficha deste dossiê) era bem movimentada econômica e socialmente. As embarcações atracavam no Portinho, o centro pesqueiro. Dali a mercadoria era levada para as peixarias e mercado central. Muitas vezes os peixes eram vendidos ali mesmo para a população local, que comprava, diretamente dos pescadores, tanto peixes de água doce quanto de água salgada.
No Desterro surgiram diversas fábricas de gelo para conservar o pescado. Hoje restaram algumas fábricas de gelo na área do Portinho, já parcialmente modernizadas. Antigamente, o gelo era comercializado em grandes barras.
Joãozinho Ribeiro Filho relata suas lembranças acerca de outras atividades produtivas que davam suporte à pesca, como pequenos comércios que vendiam redes, tarrafas, anzóis e mantimentos que os pescadores levavam em suas empreitadas. Além de suprir os pescadores do bairro, estes materiais eram enviados para comercialização em outros municípios no interior do estado. No Desterro, alguns estabelecimentos eram famosos e são lembrados até hoje, “como a quitanda de Seu Zé Reis, especializada na venda de material para construção naval, como breu, estopa para calafetagem, tintas, lubrificantes e ferragens. Existiam também as tornearias mecânicas e metalúrgicas que fabricavam ferragens e peças de reposição para as embarcações, destacando-se a oficina de senhor Mundico Carvalho, que residia numa casa morada conhecida como Solar dos Carvalho, situada em frente ao bordel Mata Homem, na Rua Afonso Pena (O Imparcial, 2020).
Os pescados que chegavam no Desterro eram, praticamente, fruto de pesca artesanal, “que vinham nos barcos, lanchas que também rebocavam os batelões (embarcação geralmente construída somente com o que chamavam de casco e coberta de palha). Era uma embarcação bem rudimentar destinada ao transporte somente de cargas. Não tinha motor nem velas e era dotada de apenas um leme que era operacionalizado por um tripulante”. Além destas, havia “embarcações de porte médio, que mesmo sendo a velas, desenvolviam alta velocidade chamadas de geleiras” (O Imparcial, 2020)
Maria da Graça Torres (Vó Graça) lembra que no Largo do Desterro havia os fazedores de pano de barco - um pano grosso usado em embarcações a vela, pano que era esticado no chão no intuito de modelá-lo.
Joãozinho Ribeiro conta que quando industrializam o processo, utilizando barco de alto mar, estes vinham cheios de peixes, sobretudo de pargo. Contudo, era uma época que pouco se comia pargo, sendo este um peixe de baixo valor comercial, ao contrário de hoje. Era tanto peixe, diz ele, que não se tinha onde armazenar. Tal quadro fazia com que os donos e os funcionários saíssem às ruas para distribuir peixe, mas ninguém queria. A população achava estranha aquela atitude.
Do Portinho, todos os anos, dia 29 de junho, saía uma procissão náutica em comemoração ao Dia de São Pedro, padroeiro dos pescadores. As embarcações cumpriam um itinerário de procissão marítima, denotando uma grande parcela da população do bairro que era devota de São Pedro. Havia muita gente participando e a religiosidade era muito forte. Atualmente ainda existe esta tradição, mas o ponto de partida não é mais o Bairro do Desterro. Praça do Pescador, também conhecida como Praça do Portinho, abriga uma estátua de um pescador produzida pelo artista Luigi Dovera, instalada em 1983. Mesmo tendo sido reformada em 2016, atraindo moradores e turistas, o local precisa de melhorias.
Na área do Portinho existiam várias rampas de acesso terrestre, para o embarque e desembarque de pessoas e mercadorias. Os estivadores eram as pessoas que trabalhavam dentro do navio, os arrumadores exerciam suas funções dentro e fora do navio - pessoas que arrumam a carga para serem transportadas para o navio. Uma outra profissão importante, é a dos catraieiros: em São Luís a variação de maré é uma das maiores do mundo. Quando maré baixa, os catraieiros eram pessoas que realizavam o embarque e desembarque de produtos e mercadorias em catraias - canoas pequenas que cabiam no máximo 5 pessoas, movidas por um remo manual, também chamadas de “cascos”, e que faziam o translado do porto para as grandes embarcações.
As embarcações também vinham cheias de coco trazidos da região da Baixada Maranhense para serem vendidos em São Luís. Ainda hoje no Portinho existem vários comércios que vendem coco verde.
Próximo ao Bairro do Desterro, existiam fábricas de tecido de algodão, comercializadas no Portinho, assim como cinco fábricas de azeite de coco babaçu - a mais famosa era a Oleama, que se mudou para uma área maior.
No Desterro, também transitavam muitos carroceiros responsáveis por transportar todo tipo de mercadoria, no embarque e desembarque, como cofos de farinha, de arroz, de feijão, de frutas, barras de gelo e materiais de construção. Naquela época não existiam caixas de isopor ou de plástico, o método de transporte era o cofo, produzido artesanalmente. Tinha também os vendedores de cofo, a exemplo do seu Chico Banana, como era conhecido no bairro. Feito da folha da palmeira (pindoba ou buriti) trançada, o cofo demora quase uma semana para estar seco e pronto para a comercialização e uso. É uma peça comum nas feiras e no Mercado Central.
Em março de 2025 foi inaugurado pelo Governo do Estado um novo Entreposto Pesqueiro (para a comercialização no atacado) e assinada a ordem de serviço para reforma do Mercado do Peixe (para a comercialização no varejo). Também foi autorizada a construção de mais espaços no Entreposto Pesqueiro para atender todos os segmentos que trabalhavam na antiga Feira do Portinho, uma parte voltada para os beneficiadores de pescado e outro para os comerciantes de hortifrúti, além de uma praça de alimentação (O Estado do Maranhão, 2025).
O Portinho, que antes era um bairro e em 1992 foi agregado ao Desterro, compõe memórias relacionadas ao trabalho e lazer de quando as águas banhavam a área. Tal referência cultural é fundamental que seja transmitida especialmente às novas gerações que não terão a oportunidade de se banhar, brincar entre os barcos ou acompanhar a agitação de um porto, como relatam os moradores mais antigos. Ainda assim, o Mercado do Peixe, a Praça dos Pescadores, os comércios de gelo e artigos de pesca são indícios do saudoso Portinho.