Ciclo festivo do carnaval
Onde está?
Ruas do bairro do Desterro, principalmente concentrado na Praça Flor do Samba.
O que é?
A socialização festiva do carnaval é referenciada no Desterro há bastante tempo, encontrando ressonância por meio de diferentes modos de organização dos brincantes, como em cordões, batucadas, blocos e, mais recentemente, através da escola de samba. Atualmente, existem dois movimentos organizados no Desterro que celebram o carnaval: a Escola Flor do Samba e o Bloco Os Cúekas (Figura 30).
A cultura de festejar o carnaval é presente entre os moradores desde o Baralho, manifestação ocorrida na Praia do Desterro. O Baralho tem a sua origem ligada ao período da escravidão no século XIX, representando uma crítica aos valores sociais ligados à escravidão: os negros se pintavam de branco e usavam objetos relacionados à elite imperial, como sombrinhas e chapéus para andar nas ruas. Com o fim da escravidão, a brincadeira do Baralho passou a ser adotada pelas populações de áreas periféricas da capital (Martins, 2013).No Baralho as pessoas seguiam “cantando músicas com letras picantes de duplo sentido, tocando castanhola, sanfona, pandeiros, reco-reco, tambores que escandalizavam a sociedade da época” (Santos, 2000, p.4).
Existem poucos relatos escritos sobre o Baralho - a não ser algumas poucas notas de jornal que traziam em tom depreciativo as "negras do baralho" e "polvilho do baralho". Em relato oral, o senhor Augusto Aranha do bairro Madre Deus, lembra que "tinha o Baralho da Madre Deus, Baralho da Praia do Caju, hoje Beira-Mar, o Baralho da Praia do Desterro. Eram os três célebres” (Santos, 2000, p.4).
Em seguida, ficaram conhecidas as turmas de samba e batucada que desfilavam pelos seus bairros de origem e, por vezes, combinavam de se encontrar no centro da cidade. As pessoas cantavam e dançavam sambas de autoria dos compositores do grupo, com a prática tradicional da “maisena” - jogar amido de milho, especialmente no rosto, deixando as pessoas pintadas de branco.
O Desterro é reconhecido por sua cultura carnavalesca, contam os moradores mais antigos. Jovenilo Geraldo Portela, com 79 anos, conta orgulhoso da família Portela, residente no Desterro há três gerações, e que é conhecida por organizar atividades carnavalescas. De sua juventude, Jovenilo lembra do Bloco de carnaval “Boêmios do ritmo”, organizado por seus pais: Melquisedeque Plácido Portela e Enedina Chagas Portela. A mãe, costureira, não saía no bloco, mas ajudava nos preparativos. Vinham brincantes de vários outros bairros para o Desterro. Com o tempo, levaram o bloco para o bairro Madre Deus. O outro era o bloco “Príncipe da Folia”, que se concentrava em frente ao Convento das Mercês, na década de XX.
Sandra Maria Fernandes se recorda de quando foi criado o bloco de carnaval Os Brasinhas no ano de 1977. Criação esta dos antigos moradores Jonildo Bossa, Tadeu e José Leite, que contaram com a ajuda do então deputado estadual e de família no Desterro Djalma Campos.
Já Orismar de Jesus Peres Silva, 37 anos, nascido e criado na rua 28, Desterro, é um dos membros da diretoria do único bloco de carnaval ativo no bairro: Os Cúekas. Orismar lembra que o Desterro sempre teve grandes blocos, principalmente nas últimas décadas, devido a formação de músicos na Escola Bom Menino (ficha deste dossiê), como é o caso do bloco “Arrastão da 28”, que tinha uma banda com cerca de 30 integrantes e do bloco “Arrastão do Centro Histórico”, organizado pela União de Moradores do Centro Histórico.
O bloco de carnaval Os Cúekas é um movimento próprio do carnaval de rua ludovicense, informal e orgânico, fundado em 2011 a partir de uma conversa entre amigos no boteco da Conceição, no Desterro. O nome Os Cúekas foi atribuído naquele encontro mesmo. À época, os cerca de vinte amigos saíam nas ruas cantando e tocando repique de mão, sem nenhum outro instrumento. Quase todos os membros da diretoria saíam vestidos apenas de cueca e Nega Pomba, por sua vez, uma moradora do Desterro, saia de calcinha à frente do bloco. Hoje, apenas um integrante da diretoria sai de cueca à frente do bloco.
Hoje, apenas um integrante da diretoria sai de cueca à frente do bloco. O itinerário do bloco costuma circular entre a Rua da Palma, a Rua do Giz (28 de Julho) e alguns becos não tão íngremes, onde o grande carrinho do mascote (o boneco) consegue transitar. Acompanham o bloco pessoas de todas idades, alguns com fantasia, a maioria de abadá e muita gente com um punhado de maisena em alguma parte do corpo. O encontro dos foliões costuma ser no final da tarde, às 17 horas, com o itinerário se encerrando na Praça da Flor do Samba, quando a festa adentra à noite com som eletrônico de marchinhas de carnaval e outros ritmos.
Falamos de um bloco que faz autogestão, que recebe apoio de pequenos comércios do Desterro e de políticos. Em geral, os abadás são doados por um político e são vendidos aos brincantes, dinheiro que serve para custear o trabalho dos músicos profissionais que compõem a banda do bloco. A diretoria permanece com a maior parte dos integrantes ao longo desses 13 anos de Os Cúekas. Orismar considera que o Desterro recebe Os Cúekas de forma carinhosa: “todo mundo quer ajudar, sempre me perguntam quando o bloco vai sair para participar. Na rua, sempre se colocam para ajudar. Qualquer tipo de confusão que possa parecer que vai acontecer na rua, as pessoas já se colocam para resolver e continuar a brincadeira”.
Com o tempo, o bloco Os Cúekas foi crescendo e ganhando prestígio, arrastando centenas de pessoas. Tanto que Orismar afirma: “nós não divulgamos muito, tipo na televisão, para não perder o controle. Já tiveram outros eventos no Desterro que deu tanta gente que fica difícil”. Os moradores do Desterro recebem o bloco muito bem: é momento de muitos venderem cerveja e alimentos para os brincantes, alguns moradores observam o movimento de suas janelas abertas e muitos seguem a multidão, que vai puxada por uma banda alegre e envolvente.
Outra movimentação carnavalesca no Desterro é a Escola Flor do Samba. A Flor advém da turma do samba já bem conhecida nas primeiras décadas do século XX em São Luís. “Turma da Mangueira, a primeira, no João Paulo ou Mangueira; Turma da Flor do Samba, no Desterro; Fuzileiro da Fuzarca e Turma do Quinto, na Madre Deus.
À Turma no Desterro, fruto da união de pescadores, pequenos comerciantes e mulheres de diversas profissões que moravam no Desterro, teve a atribuição deste nome em homenagem a Nêga Fulô, mulher negra que morava na área do meretrício e se destacava pela beleza, gingado e samba (Ericeira, 2006; Sousa, 2023). O samba-enredo “Nêga Fulô, a negra maluca que enfeitiçou o desterro”, de 1987, dizia: “Vem da Rua da Estrela / Na pungada de um tambor / Quituteira de mão cheia / Pregoeira do amor / chegou Nega Fulô, ô ô / Nega Fulô, ô, ô / Nos requebros dessa Nêga / Nosso samba se criou / Nêga pra homem nenhum botar defeito / No sorriso de Fulô / Quero a tristeza espantar / Haja Deus, haja Deus / No colo da minha Nêga / Ainda embalo os sonhos meus / Rodou a baiana no Desterro Desceu ladeiras / encheu as ruas de amor /Cantou do seu povo a fantasia / Desfilou a cidade em alegoria / E fez a festa ao som de sua bateria [...] (Sousa, 2023, p.127).
Surgida a partir de turmas de batucadas em encontros carnavalescos de rua entre estivadores, comerciantes e pescadores do bairro do Desterro e adjacências, a Flor do Samba mantém Formas de Expressão artístico-culturais de caráter comunitário e de autogestão, envolvendo brincantes e admiradores durante todos os processos necessários à realização do carnaval de base popular. Com autoria própria, as letras dos sambas-enredos criados, votados e ensaiados a cada ano junto à comunidade carnavalesca também marca presença onde o “Negro, faz da força o canto”, como estuda Sousa (2023).
Os preparativos para o carnaval se iniciam mais de quatro meses antes, com a pesquisa, apresentação e escolha das propostas de samba-enredo; ensaios e apresentação da porta-bandeira e mestre-sala; inscrição, teste e ensaios técnicos com antigos e novos integrantes da bateria e passistas. Não diferente de outras realidades, na Flor, o intenso calendário de uma escola de samba já diz do encontro celebrativo que é o ciclo festivo do carnaval, contemplando feijoadas, shows de samba e pagode e apresentações musicais de muitos parceiros. Na Praça da Flor do Samba (ficha deste dossiê) a vida se enche de som, cor, suor e sorrisos por meses consecutivos. Tem algo de identidade carnavalesca naquele terreno.
Não por acaso, os convites para a Flor do Samba se apresentar em outros eventos no período próximo do carnaval também adensam o ciclo festivo e ampliam os lugares de festa além da Praça da Flor do Samba e da Avenida de desfile.
Voltar para o topo