O que é?
Fundado em 1654 pela ordem religiosa de mercedários de origem espanhola, tendo passado por diversas refuncionalizações e reconstruções arquitetônicas ao passar dos séculos (Silva, 2011), entende-se o Convento das Mercês como lugar relacionado a afetividade dos habitantes do Desterro por se tratar de um reposicionamento simbólico quanto ao edifício histórico tombado: cotidianamente, os moradores do Desterro vêm usando o Convento em situações distintas, desestabilizando suas funções oficiais e reapropriando-se de tal estrutura monumental para as necessidades socioculturais do bairro (Figura 19).
O Convento das Mercês é um conjunto arquitetônico constituído por um monumental edifício de dois pavimentos (corpo conventual), claustro (pátio interno quadrangular, rodeado por galerias cobertas, comum em mosteiros, igrejas e edifícios religiosos), ruínas da Igreja das Mercês, largo com vista panorâmica (entrada original via Rua da Estrela voltado para o rio Bacanga) e largo posterior (entrada atual via Rua da Palma - Jacinto Maia desde 1920).
A área total do terreno do Convento das Mercês atualmente é de 10.286,17 m², dos quais 4.320 m² são de área construída.Por se tratar de uma edificação resistente e secular, o passado de quando foi implantada ficou “registrado por seus paredões em pedra e cal-de-sarnambi, nas arcarias de claustro característico do barroco ibérico, nos resquícios de tijolo cru e nas pedras de lioz” (Silva, 2011, p.74).
Aproveitando da entrada principal do Convento das Mercês - um amplo espaço com grama e palmeiras que destoa da paisagem urbana do entorno formada por ruas apertadas e casas aglomeradas -, é muito comum ver crianças e jovens jogando bola, correndo e brincando, além de ensaios de ritmistas da Flor do Samba marcados no pátio da frente, utilizado como estacionamento do Convento. Outrossim, a excelente infraestrutura do Convento das Mercês também é utilizada estrategicamente por organizações socioculturais do Desterro em diversos projetos da comunidade que exigem atender um público maior, como no caso de eventos da Escola de Música do Bom Menino e de atividades do Coletivo Por Elas Empoderadas, entre outros.
O Convento das Mercês também desponta como lugar de disputa entre a forma espacial histórica que expressa o discurso de poder hegemônico da Igreja e do Estado na formação da cidade e as demandas populares por espaços bem estruturados e de uso comum, especialmente, no quadro e contexto de vulnerabilidades do bairro do Desterro.
Forma espacial marcante, tanto por sua proporção física monumental que o destaca na paisagem, quanto por seu simbolismo histórico de poder, a construção do Convento testemunha o papel das ordens religiosas em São Luís do Maranhão. Depois da expulsão dos franceses, em 1615, aportaram no Maranhão em prol do projeto colonial ibérico os missionários franciscanos, jesuítas, carmelitas e mercedários - estes da Sagrada e Real Ordem Militar de Nossa Senhora das Mercês e da Redenção dos Cativos.
No decorrer do século XVII - XIX, os conventos e suas igrejas, muitas vezes também associados ao funcionamento de escolas e orfanatos, afirmam a força da Igreja Católica e de suas ações missionárias, caritativas e imobiliárias direcionando a expansão urbana. No núcleo fundacional de São Luís, no Desterro, a igreja à Nossa Senhora das Mercês fora inaugurada em 31 de janeiro de 1660 e quatro anos após o Convento estava construído, “posto sob a invocação de Nossa Senhora da Assunção, embora o povo o dissesse sempre Convento das Mercês” (Meireles, 1977, p.33).
Em 1838, neste prédio funcionou o Liceu maranhense, de instrução secundária, e em 1863 funcionou o Seminário de Nossa Senhora das Mercês (Lima, 2007). Existem registros historiográficos que datam reformas no Convento das Mercês em 1863, pela quase extinta Ordem dos Mercedários, já sob a administração da Diocese de São Luís. Em 1892, consta o registro de venda do Convento pelo último mercedário vivo à Diocese de São Luís. Por sua vez, em 1905, a Diocese vendeu o prédio ao Tesouro do Estado do Maranhão, marcando uma transição do espaço religioso para o secular.
De propriedade do Estado, entre 1905 a 1987 funcionou na estrutura do Convento o Quartel Geral do Comando do Corpo de Polícia do estado do Maranhão e o Corpo de Bombeiros. Silva (2016) buscou compreender a relação do Desterro e da prostituição com o Quartel de Polícia instalado no Convento das Mercês, para o sociólogo “Nessas ruas que contornavam o quartel, coexistiam com a instituição militar - e todo seu contingente de soldados, cabos, sargentos e oficiais - as casas ditas de família e as pensões das madames que serviam como reduto de muitas meretrizes, cuja presença, no início do século XX, já era significativa no centro da cidade de São Luís” (Silva, 2016, p.28). Os pares ordem/desordem e prazer/lazer tinham uma relação íntima quando do Quartel tão próximo a área do meretrício no auge das décadas de 1940 a 1970, como apontam os registros policiais no período.
Em 1977 o prédio do Convento foi tombado pelo IPHAN e, posteriormente, restaurado pelo Projeto Reviver. No ano de 1990, outro evento significativo envolveria novos rumos ao Convento das Mercês: o então governador maranhense João Alberto de Souza doou o edifício à Fundação José Sarney, seu aliado político. Em junho de 2009, a Justiça decretou a devolução do prédio histórico ao patrimônio estatal e, em outubro do mesmo ano, a Fundação foi fechada após denúncias de desvio de verbas.
Na obra “O caso do Convento das Mercês: as marcas do atraso político e a ilegalidade envolvendo o patrimônio público”, Emílio Azevedo (2006) denuncia como tal patrimônio se tornou em um dos principais símbolos da Oligarquia Sarney, sendo tido como uma espécie de “templo político da oligarquia local”, um verdadeiro “monumento à vaidade” (Azevedo, 2006, p.38).
Apesar disso, oficialmente desde 2011, o Convento das Mercês é a sede da Fundação da Memória Republicana Brasileira (FMRB) que conta com salas de uso administrativo e de restauração, salão de exposição permanente e outros de exposições intermitentes, Biblioteca Padre Antônio Vieira e auditórios. Frequentado por grupos escolares e turistas, o espaço do Convento também é suporte para festivais, exposições e encontros culturais diversos.
Enquanto primeiro presidente civil após o período de Ditadura Militar no Brasil e o único maranhense a ocupar o cargo, a presença da figura política de José Sarney é muito viva no bairro Desterro - é comum ouvir dos mais antigos a lembrança de quando Sarney caminhava no bairro, antes dos anos 2000, conversando com as pessoas; no livros publicados de autoria de Sarney sobre essa época; no histórico da Banda Bom Menino, do qual é considerado responsável pela criação do projeto. Inclusive sua filha, Roseana Sarney, também continua mantendo laços com o Desterro, apoiando financeiramente alguns eventos e sempre que possível presente no Convento das Mercês.
A barganha política em que a cultura popular se torna moeda de troca é uma característica que, infelizmente, perdura no Desterro, não diferente de outras localidades. Os políticos que apoiam a cultura popular e fazem dela sua bandeira não são esquecidos pelos moradores, mesmo que saibam de questões controversas envolvendo a família Sarney no Maranhão (Aires, 2007).
Cumpre salientar que o Convento das Mercês é um espaço em que já foram organizadas algumas atividades culturais que envolveram a comunidade do Desterro, como as Mulheres da Natalina, queimação de palhinhas e outras atividades formativas com apoio de Secretarias. Uma das atividades que chamou a atenção foi o oferecimento de oficinas de teatro, desenho e pintura voltado para crianças organizadas por iniciativa de Lena Santos, 63 anos, que trabalha desde 2015 na Fundação. A arte-educadora, artista e produtora é baiana e foi abraçada por São Luís há 32 anos, antes mesmo de trabalhar na FMRB já conhecia o Desterro produzindo outras atividades artísticas (na Flor do Samba, Serenata de Amores e oficinas que fora convidada). “Eu me sinto segura no Desterro, as pessoas são simpáticas e zelosas, apesar de muita gente achar que aqui é um bairro perigoso, o Desterro faz parte da minha vida”, comenta Lena.
Lena organizou de 2015 a 2023 uma série de atividades para as crianças do Desterro. Ela relembra que no começo a Fundação não tinha dinheiro para financiar projetos, “agora o presidente vai buscar e consegue realizar, mas no comecinho não. Então eu fui atrás dos meus amigos e conseguimos cestas básicas, comida, atrações, parceria com doação de livros, e a comunidade toda do Desterro viu o trabalho que a gente fez com as crianças e começou a nos apoiar. Depois até cobravam quando é que as oficinas iriam retomar”. Lena começou este trabalho de forma individual, mas comenta que foi necessário o apoio de uma rede de colaboradores para conseguir material para as oficinas e eventos com as turmas.
O Convento das Mercês enquanto referência cultural é tensionado por diferentes perspectivas. Do que se reitera a vigilância necessária quanto à cooptação do patrimônio para fins políticos, com a personificação do poder e autopromoção. Ainda assim, é justamente na possibilidade de subverter o patrimônio (Scifoni, 2022), que o Convento das Mercês aparece como lugar com capacidade de abrigar projetos e eventos que atendam às demandas socioculturais do Desterro.