O que é?
Os processos de criação artística realizados ao longo do ano entre os integrantes da Flor do Samba (carnaval), do Lendas e Magias (Bumba Meu Boi - Figura 40) e do Tambor dos Onças (Tambor de Crioula) para que tais manifestações culturais cumpram seu calendário festivo fortalece o vínculo comunitário desses grupos e, consequentemente, do bairro Desterro.
É comum que uma mesma pessoa esteja envolvida nos processos criativos das várias manifestações culturais no Desterro. Tanto a aprendizagem artesanal, na confecção dos adereços envolvidos nessas manifestações, quanto a aprendizagem rítmica da dança e toque agregam antigos e novos membros: os mais experientes transmitem aos menos experientes; alguns se destacam liderando e, inclusive, a autogestão e autoformação entre os membros incentiva que sigam profissões correlatas às aprendizagens vivenciadas durante esses processos de criação artística comunitária nos movimentos de cultura popular.
Sobre o carnaval (Ericeira, 2006; Guayanaz, 2006), a dinâmica do trabalho artístico-cultural em prol da Flor do Samba é intensa no Desterro e envolve tanto moradores como admiradores, inclusive moradores de outros bairros. Diversas frentes de trabalho se iniciam em outubro do ano anterior ao carnaval e prosseguem até o carnaval, com muito planejamento e dedicação em tarefas individuais e coletivas de centenas de pessoas. As Formas de Expressão promovidas pela Escola de Samba envolvem diversas etapas de organização, criação e produção, como a criação e escolha do samba enredo, alas (fantasias e adereços, carros alegóricos e coreografias), divulgação e agregação de interessados, ensaios técnicos com a bateria, comissão de frente, mestre-sala e porta-bandeira e ensaios gerais, até se chegar, por fim, o desfile de carnaval na passarela.
Quanto à Flor do Samba, das 11 alas produzidas em 2023, por exemplo, quatro eram de moradores do Desterro: Mercês, Dijé, Sandra e Val (estes últimos também diretores do Lendas e Magias). Responsáveis por alas há muitos anos, esses agentes formam suas equipes, o que envolve costura, medição, finalização das indumentárias e convites para que as pessoas desfilem na ala. “Alguns adereços de mão, pés e cabeça, com uso de cola simples, nós mesmos fazemos em nossa casa [...], das fantasias, das alas. Algumas nós cobramos e outras distribuímos na comunidade”, esclarece dona Sandra. Com as indumentárias sendo pagas, o dinheiro circula entre a própria comunidade que se dispõe em tempo, energia, criatividade e dedicação à escola de samba do bairro. A maioria das pessoas contratadas nas alas carnavalescas de Mercês, Dijé, Sandra e Wal, semanas antes do carnaval, são moradoras/frequentadoras do Desterro.
Também dá suporte à criação artística o ateliê (alugado por temporada de dois meses antes do carnaval), onde se faz as indumentárias maiores e com mais detalhes, como as “cabeças” das fantasias de algumas das muitas alas e outros objetos que compõem os carros alegóricos. Há dois anos como responsável do ateliê, Regilene, conhecida por Lilica, organiza e lidera uma equipe formada para dar este suporte: no desfile de 2025 confeccionaram cerca de duas mil cabeças. Lilica aprendeu com Luís Carlos Almeida, que liderou o ateliê pelos cinco anos anteriores. Ambos também trabalham na confecção artística do Lendas e Magias.
Do Bumba Boi, a criação artística do Lendas e Magias é diversificada. Um dos seus diferenciais é a “pegada mais acelerada” da música e da dança, se comparados a outros bois de orquestra da Ilha de São Luís, explica o presidente. Alguns dos músicos profissionais da orquestra são moradores do Desterro, e grande parte dos 20 integrantes que compõem a banda do sotaque de orquestra teve sua formação profissional na Escola de Música Bom Menino, inclusive Luccas Neto - compositor e intérprete principal.
Cada segmento que compõe o Boi tem uma música específica, coreografada com passos característicos daqueles personagens (IPHAN, 2011). A maior parte das coreografias atuais do Lendas e Magias são criações de Leonel Viegas, que fez parte do batalhão há cinco anos. Desde 2024, Flávia assumiu como coreógrafa, fazendo algumas modificações nas músicas anteriores e criando coreografias novas. Flávia também é coreógrafa da Flor do Samba, e tem mais de 15 anos.
As indumentárias também são um diferencial do Boi do Lendas e Magias, tendo o trançado de fitas como a principal marca de identidade visual. Cada batalhão tem uma característica de vestimenta, e no Lendas e Magias o responsável por criar e ensinar a produzir é Luís Carlos Almeida. De família artesã, avó rendeira, avô sapateiro e mãe costureira, Luís foi aprendendo as artes do trançado, das combinações de materiais e cores desde muito cedo e, assim, foi construindo sua carreira profissional.
Luís comenta que seu trabalho para a temporada seguinte se inicia bem antes dos demais: entre criação, produção de protótipos e testes das indumentárias para os personagens e a apresentação para os demais integrantes da diretoria do Boi, com consequente aprovação para que seja confeccionada e usada pelo batalhão, demora cerca de três meses.
Depois da produção das indumentárias para a temporada, os brincantes com disponibilidade têm a oportunidade de aprender tais saberes com o Luís durante os meses de abril e maio, período em que a diretoria fica praticamente todas as tardes disponíveis no ateliê para receber e ensinar os brincantes na confecção das indumentárias. Desde 2024, o ateliê do Lendas e Magias está localizado em uma sala térrea no Edifício Governador Archer, na Avenida Magalhães de Almeida, que foi cedida pela União de Moradores do Centro Histórico de São Luís.
Todo o material para a produção das indumentárias é disponibilizado pelo Lendas. O brincante fica responsável pela mão de obra, que pode ser dele próprio ou de alguém que ele remunere para fazer. Ao final da temporada, a indumentária fica com o Boi Lendas e Magias, que aproveita alguns dos materiais para a confecção das próximas temporadas, guardam algumas indumentárias no seu acervo e usam nas apresentações fora de temporada. Do restante, indumentárias podem ser vendidas para os batalhões menores do interior do Maranhão.
Atualmente, cerca de 70% dos integrantes conseguem fazer sua própria indumentária (índias, índios e vaqueiros). Os miolos dos bois sempre são confeccionados por outras artesãs que bordam com canutilho e outras técnicas que exigem muita habilidade. Já as vestimentas da banda e dos personagens Catirina e Francisco são produzidas por costureiras contratadas, afirma a diretoria do Lendas.
Inclusive, ao longo desses anos dedicados a diversos grupos de carnaval e de Bumba Meu Boi, muitas pessoas foram formadas nesse processo da economia criativa que se dá nas festas de cultura popular maranhenses, em que o colorido das centenas de grupos existentes é trabalho resultante de muitos artesãos e artesãs habilidosas que fazem da festa sua fonte de renda principal ou complementar.
Regiliene Rodrigues, a Lilica, “é uma das crias de Luís”, e, posteriormente, também se profissionalizou através de cursos e certificações na área. Ela é uma das artesãs procurada pelos demais integrantes do Lendas que não conseguem confeccionar sua própria indumentária. Na temporada de 2024, Lilica confeccionou material apenas para o Lendas, 14 indumentárias de índias e 11 de vaqueiros. Na temporada de 2025 foi procurada para um número próximo disso, além de receber várias encomendas para a confecção de outros bois. Lilica é uma das poucas brincantes que sabe fazer os trançados de fita para o Lendas e Magias. Atualmente ela se tornou uma referência jovem criação artística do Lendas e da Flor, empregando muitas outras pessoas para trabalhar com ela em período de alta temporada.
Artesã, trancista e boleira, Lilica, mulher negra de 29 anos, mora no bairro Madre Deus e já desfilou em vários outros bois, inclusive simultaneamente ao Lendas e Magias. A história de Lilica com o Desterro começa quando era criança: aos 12 anos de idade começou a ensaiar no Lendas e Magias, sendo integrante desde o início da fundação do Boi, saindo como índia há 16 anos. Ainda com 12 anos também começou a ensaiar na bateria da Flor do Samba e iniciou tocando um instrumento conhecido por roca (um tipo de chocalho de metal percussivo). Tempo depois passou para o tamborim, caixa e, em 2024, sairia como musa, inscrita assim no concurso municipal das musas, que ganhou e foi considerada princesa do carnaval. Desde então vem trazendo seus familiares e amigos para participar dessas manifestações culturais, visto que considera o Desterro muito acolhedor.
Laços de solidariedade são estabelecidos entre aqueles que fazem o carnaval, o bumba meu boi e o tambor de crioula acontecer: pela fé nos santos juninos, pelo compartilhamento de um mesmo espaço sociocultural, pelo tempo que ficam juntos, pela cumplicidade no desempenho das tarefas de preparação das manifestações culturais em tela, pela dedicação ao grupo e comunidade e pelo compromisso assumido na produção das brincadeiras, cria-se um sentimento de pertença intragrupal, uma qualificação de saberes que fortalece a dinâmica cultural do bairro, um bairro esplendoroso.
A Casa do Bairro também se destaca com oficinas de artesanato para geração de renda das integrantes - a maioria idosas. Muitos comentam que aprenderam diversas técnicas durante as oficinas e conseguem reaproveitar materiais recicláveis e usar a criatividade para elaborar peças que são vendidas/presenteadas em datas comemorativas. Falamos, pois, de um trabalho social espetacular.
A criação artística comunitária é um tipo de saber que condensa tanto a satisfação em ensinar-aprender e colaborar para um projeto comum em que os integrantes são fundamentais nesse processo coletivo, quanto à profissionalização e geração de renda individual e familiar.