Seu Dalmir
Onde está?
Rua Afonso Pena (proximidades da Igreja do Desterro), Desterro, São Luís (MA)
O que é?
Funcionário público estadual aposentado como professor de educação física, Dalmir Campos, o “Seu” Dalmir, 74 anos, costuma se sentar à porta de sua casa à tarde, de onde observa a movimentação das ruas do Desterro, não raro ouvindo rádio (Figura 42). Ao perceber que pessoas de fora do bairro estão circulando por ali, uma vez que conhece todos os moradores, ele logo se aproxima, puxa assunto e vai falando sobre o Desterro, contando as mais diversas histórias que envolvem edificações, ruas, costumes e acontecimentos do bairro. Dalmir Campos é um dos moradores mais antigos do Desterro, já alcançando sete décadas de vivência naquela terra, e é considerado uma pessoa-patrimônio por ser ativo em várias organizações culturais e religiosas do Desterro.
Detentor de uma memória rica em detalhes, Dalmir é, invariavelmente, procurado por pesquisadores e jornalistas enquanto porta-voz do bairro. Porém, muito reservado, ele não gosta de ser gravado, fotografado ou filmado (mas ele autorizou a foto acima). Conta que certa vez, há alguns anos, uma TV italiana foi fazer uma reportagem sobre o Desterro e as pessoas o indicaram para falar. Assim que soube, fugiu pela porta dos fundos de sua casa para não ser entrevistado. Por outro lado, para uma prosa descontraída, sobretudo andando pelas ruas históricas do Desterro, Dalmir o faz de modo sorridente, simpático e conversador.
Os pais de Dalmir são migrantes do município de Viana-MA, e que vieram fazer a vida na capital: Djalma Gomes Campos, marchante (profissional que negociava para os açougues), com sua esposa Galdina Campos, tiveram treze filhos - todos com nomes iniciados com a letra “D”.
A casa da família Campos, situada a poucos metros da Igreja do Desterro, sempre foi um ponto de referência no bairro. Atualmente, Dalmir realiza ali a celebração da queimação de palhinha (Ficha deste dossiê). No passado, o seu irmão Djalma Campos ( in memorian ) foi um reconhecido jogador de futebol profissional e político famoso. Djalma promovia almoços para a comunidade em datas festivas. “A fila de pessoas para comer dobrava a esquina de tanta gente” [...] “Lá [em casa] as pessoas pediam material de construção para reformar suas casas, remédios, comida, entre outras coisas. Ele [Djalma] anotava em um caderno os pedidos das pessoas e depois que conseguia enviava para cada um”, recorda saudoso Seu Dalmir.
Quando Djalma Campos faleceu, em 2009, o velório foi realizado na Igreja do Desterro e o largo ficou lotado. Vieram vários ônibus de Viana - cidade onde Djalma morava na época - e aportaram no Desterro para prestar suas últimas homenagens a Djalma. Sabendo disso, a proprietária de um grande restaurante próximo do Largo do Desterro ofereceu comida para centenas de pessoas no velório. Quando Dalmir soube, foi até o restaurante para pagar, mas ela rejeitou, dizendo que “aquele gesto não chegava nem perto da quantidade de vezes que Djalma Campos havia ajudado”, relata Dalmir emocionado.
Trabalhando na Secretaria dos Esportes e entusiasta das práticas esportivas e recreativas, Dalmir promovia jogos abertos no Largo do Desterro, com direito a premiação. Recorda-se de quando organizou as Olimpíadas do Desterro, congregando muitas pessoas no Largo do Desterro: ali mesmo fazia a demarcação das laterais, colocava as traves e o disputado campo de futebol estava pronto. Além disso, outras modalidades eram oferecidas aos moradores, como vôlei e jogos de tabuleiro. À época adolescente com seus 12 anos, Joãozinho Ribeiro lembra como foi um evento que conseguiu reunir moradores de praticamente todas as áreas do bairro a partir dos esportes.
Além da Igreja Católica, da qual Dalmir é membro ativo, ele também compõe a diretoria da Flor do Samba e ajudou a movimentar a cena cultural das artes cênicas no Desterro em diversas oportunidades, como, por exemplo, na Serenata dos Amores (ficha deste dossiê). Também produziu peças de teatro em que recrutava moradores do próprio bairro para serem atores amadores. Cantavam e encenavam personagens da história maranhense, com enredos que ele próprio escreveu e organizou. Personagens como Ana Jansen, Catarina Mina, Padre Antônio Vieira, a vendedora de pamonha do bairro (dona Maria, à época viva com 95 anos), a vendedora de caranguejos uçá que cantarolava rimas para atrair clientes, entre outros, dava vida ao teatro cantado do Seu Dalmir. Dalmir, inclusive, nos presenteou com algumas cantigas do teatro, rememorando com um olhar brilhante e saudosos o dia da estreia, quando famosos artistas maranhenses foram ao Desterro, especialmente, para assistir aquele teatro autoral. Até hoje a peça teatral é lembrada com muito carinho pelos moradores.
Os encantos do Desterro estão vivos na memória de Dalmir Campos que cantarola as músicas dos antigos pregoeiros que circulavam pelo bairro, vendendo pamonha, caranguejo uçá e outras delícias. Outra sonoridade que Dalmir conhece bem, pois aprendeu com um senhor que lhe antecedeu em tal função na Igreja, é o badalar dos sinos da Igreja do Desterro quanto à transmissão de uma mensagem: anunciar o falecimento de alguma pessoa do bairro. Assim, seu Dalmir é também referenciado em sua comunidade por este saber. Tanto é que a comunidade ficou surpresa, após anos sem Dalmir tocar, ouvir o sino badalando o falecimento do filho de uma moradora do bairro, em janeiro de 2024.
A saber, enquanto objeto e expressão de comunicação, os sinos são referências milenares no mundo inteiro. A função dos sinos, principalmente quando presente na construção da identidade religiosa cristã católica apostólica romana, necessita de uma relação compreensiva da mensagem que envolve quem os toca e os ouvintes. Na Igreja de São José do Desterro havia quatro sinos localizados na única torre sineira, no lado direito da Igreja. Em 1943, quando a Igreja foi reaberta, os quatro sinos foram bentos com nomes de São José, São Luís, Santa Bárbara e São Jerônimo (Biblioteca do IBGE). Atualmente, dois desses sinos estão na Igreja do Desterro e os outros dois compõem o acervo do Museu de Arte Sacra, na Praça Dom Pedro II, no bairro Praia Grande, Centro Histórico.
Os sinos das igrejas e capelas marcaram os ritmos da vida secular em São Luís. Nos séculos XVIII e XIX, por exemplo, os sinos anunciavam ao povo, além de atividades religiosas, atos políticos, a entrada e saída de governadores e passeios do bispo pela cidade. Era obrigatório, como consta no Regulamento de 2 de janeiro de 1724, que regia a cidade que: “Quando o bispo sair devem repicar os sinos de tôdas as igrejas por onde passar; ajoelhando-se todas as pessoas com quem se encontrar, até que ele de todo passe”. Os sinos também repicavam sempre que o Capitão-General entrasse ou saísse do Palácio, “como uma espécie de continência sonora” (Lacroix, 2020, p. 199).
Nos dias de hoje, os moradores do Desterro mais antigos comentam sobre a paisagem sonora dos sinos de outrora. Com aparente saudade, eles dizem que os sinos eram tocados para anunciar as missas e a morte de alguém da comunidade. No Desterro, o toque da missa era composto por três sinais sonoros em um dos sinos, já o toque que anunciava um falecimento utiliza os dois sinos: um com o toque do badalo de dentro e o outro tocado com uma pedra e uma haste metálica por fora, formando uma harmonia complexa e inesquecível para os moradores.
Segundo relato dos moradores do bairro, é “uma batida meio melancólica”, afirma Maria da Graça Torres, Vó Graça (Ficha pessoa-patrimônio deste dossiê). “O toque é muito peculiar. Tocou, todo mundo sai na porta ou, se não souber quem foi que morreu, todo mundo vai na Igreja”. Disso, “É interessante o comportamento da comunidade quando é tocado o sino [...] O sino, não é um movimento isolado do toque do sino, é o que ele anuncia para comunidade”, afirma Gilsivaldo Gomes Fonseca (Vadinho).
Pelo que apuramos, a única pessoa no Desterro que sabe tocar esses sinos é Dalmir Campos. Algumas pessoas da comunidade insistem para que Dalmir transmita este seu conhecimento para que a tradição continue. Outros que trabalham ativamente na igreja, como Vadinho e o ministro Francisco, têm o conhecimento sonoro da batida e acreditam que conseguiriam se tentassem na prática, porém, como há um significado tão forte para a comunidade, nunca ousaram tentar. Vadinho menciona: “a gente pode até fazer, mas a gente sabe que não é a mesma coisa, pois é muito sensível. Pode até ser muito parecido, mas, toque de sino de defunto, nós ligamos diretamente para o Dalmir […] a receita de bolo todo mundo tem, mas cada mão é uma mão”.
Ao que consta, Dalmir também ensinou este saber a um vigia que trabalhava na igreja, mas o mesmo faleceu. Vadinho diz que “O toque é atribuído quase exclusivamente a ele. São coisas que realmente não deveriam se perder. Por mais triste que seja, é um anúncio, uma mensagem importante".
Por mais de dez anos a tradição do toque do sino no Desterro foi interrompida, visto que a estrutura da torre estava precária e o acesso das pessoas ao local era evitado devido ao risco de acidentes e as orientações da FUMPH. No final de 2023 foi realizada uma limpeza no local e uma reforma na estrutura de madeira que dá acesso aos sinos pelo órgão patrimonial. Eis que no dia 12 de janeiro de 2024, o badalar fúnebre tocou no Desterro. Após mais de 10 anos de tradição interrompida, Dalmir tomou a iniciativa de subir na torre para tocar os sinos para notificar o falecimento de uma pessoa da comunidade. A comunidade ficou surpresa com a atitude de Dalmir e esperançosa de que a tradição não se finde.
Conhecer e conversar com o senhor Dalmir Campos é se aprofundar na memória viva do Desterro: ele traduz admiração, afeto e alegria expresso em seu compromisso em manter pulsante a dinâmica cultural do Desterro. Caminhante de suas ruas e (re)produtor de suas histórias, Dalmir condensa consigo a história cotidiana, festiva e solidária do bairro.
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