O que é?
A socialização festiva do carnaval popular no Desterro compreende um vasto período histórico em que os brincantes se organizavam em diferentes configurações, tais como cordões, baralhos, bailes, turmas de batucadas, blocos e, mais recentemente, escola de samba. Originada desse processo mais popular de brincar o carnaval em bloco, a escola Flor do Samba (Figura 20) é a segunda mais antiga de São Luís, fundada em 11 de novembro de 1939, e congrega lazer, trabalho e auto-organização entre seus membros.
Para que a escola desfile com centenas de integrantes na tão esperada noite na passarela do samba, muitas atividades são realizadas durante o ano, como eventos para angariar fundos, encontros festivos (escolha e lançamento do samba enredo, apresentação de mestre-sala e porta-bandeira, escolha de novos integrantes, comemoração de aniversário dos integrantes da Flor, apresentações com grupos culturais, entre outras), produção carnavalesca e ensaios técnicos e gerais. Assim, a Flor (sede - independente da localização) funciona como um lugar em que a gestão popular do patrimônio compareceu com muita intensidade na auto-organização e escolha das narrativas que são representativas para a escola (Souza, 2023).
Historicamente, o Sindicato dos Arrumadores e Peixeiros no Desterro se colocaram à frente da consolidação da escola, sendo sua primeira sede na Rua da Estrela. Posteriormente, no final da década de 1950, a Flor do Samba se destacou para a casa de Seu Tatu, atrás da Igreja do Desterro, onde permaneceu até 1963. Posteriormente, a Flor se fixou temporariamente no bairro São Pantaleão, no Sindicato dos Peixeiros, já que o presidente da escola de então, conhecido como “Piranha”, também era o presidente do sindicato (Ericeira, 2006; Guayanás, 2006).
De acordo com Luís César Maia Araújo, atual presidente da Flor do Samba, a sede da Escola esteve por 20 anos no bairro São Pantaleão.Na década de 1980, a prefeitura doou espaço no bairro do Desterro, possibilitando que a escola retornasse para o seu bairro de origem.
Luís Araújo participa da Flor desde o ano de 1977, à época com 20 anos de idade. Assumiu como presidente em 1997, quando foram campeões do carnaval com o samba-enredo “No rabo de um foguete”. Foi presidente por vários mandatos bianuais intercalados entre os 1997 até 2006, depois retornou à presidência em 2016, de onde segue desde então. “Eu não sou do bairro, mas eu já me considero como morador do Desterro, porque eu já tô há 46 anos aqui. Praticamente uma vida inteira”.
Para o orgulho carnavalesco Luís: “quando você fala Desterro, você liga logo ao nome da Flor do Samba. É a maior representatividade cultural do samba, não só do Desterro, como do Centro Histórico de São Luís”. Quanto à movimentação que a Flor gera no Desterro, ele considera que a Escola eleva o nome do bairro, algo que pode ser sentido na quantidade de pessoas atraídas pelos ensaios da Escola, incluindo ex-moradores do Desterro e turistas.
Para Luís, o carnaval das escolas de samba maranhenses divide-se em antes e depois de 1974: foi neste ano que a Flor do Samba desfilou “em estilo carioca, com enredo, carro alegórico, comissão de frente, mestre sala e porta-bandeira, que antes não tinha nada disso, antes eram uns blocos de samba. Foi a For que começou isso”. O estilo carioca chegou à Flor através de “um carnavalesco que veio do Império Serrano, apelidado de Carioca, que se encontrou com o Pai Piranha - presidente da época. Piranha é o nosso pai na realidade, uma pessoa que trouxe todos para a Flor do Samba, o presidente mais notório de toda a história do Carnaval daqui [...]”, contextualiza Luís.
Bruna Gomes Araújo, 27 anos, nascida e criada no Desterro, é uma das moradoras engajadas em manifestações culturais negras no bairro desde criança, sendo integrante da Flor do Samba desde seus sete anos de idade: desfilou por três anos como passista mirim e baliza, três anos como princesa de bateria e há 14 anos é rainha de bateria. Recorda-se que começou na escola de samba devido a um convite e, principalmente, ao apoio de uma moradora mais antiga que era membro da Igreja do Desterro e integrante da diretoria do Flor do Samba, a dona Leocádia, “ela cuidava de mim e me incentivava muito [...] ela queria que só as meninas da comunidade saíssem, tanto que hoje sou eu, a neta dela e a filha de outro diretor que sai a frente da bateria da Flor do Samba. A bateria também é praticamente todo mundo da comunidade”, comenta Bruna.
Apesar de ter tios que já eram integrantes da Flor, Bruna foi se apaixonar pela cultura - especialmente a dança - em um projeto de educação patrimonial intitulado “Teatro das memórias: laboratório de contos, cantos e recanto” que aconteceu na Igreja de São José do Desterro, com a promoção de várias oficinas culturais. No ano de 2006, o Grupo de Estudos e Pesquisas do Patrimônio e Memória da UFMA e a União dos Moradores retomaram este projeto de extensão que já havia tido algumas ações exitosas no ano de 2004 no Desterro. A partir de então, Bruna se destacou e começou a participar da Flor (depois do Boi e da Fábrica de Artes).
Outro morador do Desterro que exerce uma função muito significativa na Flor é José Domingos Lindozo Filho, mestre Preguinho, que participa da Flor do Samba desde o ano 2000 e conta como foi incentivado a crescer dentro da escola: “Comecei tocando tamborim, com mestre Gute. Fui tocando de tudo. Em 2020, Xaréu me convidou para ser o 3º mestre de bateria, em 2023 fiquei como 2º mestre, em 2024, ganhei a batuta de primeiro mestre e fomos campeões no carnaval desde então”.
Josué, um garoto de cinco anos e excepcional ritmista, filho do Mestre de bateria Preguinho e da rainha Bruna, é da quarta geração presente na Flor do Samba. Emídio (bisavô paterno de Josué) tocava, compunha e participava quando a Flor ainda era bloco de carnaval e Vó Graça (filha de Emídio e avó de Josué) também acompanhava a Flor desde criança, e, com 77 anos de idade, ainda sai em alas. Outros exemplos intergeracionais como este também compõem o repertório da Flor que agrega valores culturais à identidade e memória familiar no Desterro.
Desde 2020, a sede da escola está interditada por conta da iminência de desabamento. A interdição resultou na locação de uma casa no bairro por meio de aluguel social pago pela Prefeitura, local onde se guarda os instrumentos maiores. E, alguns meses antes do carnaval, aluga-se algum ateliê no Centro, onde são produzidas e guardados indumentárias e adereços.
Contudo, parece não restar dúvida, o lugar essencial da Escola Flor do Samba é a praça nomeada carinhosamente de Praça da Flor - situada à frente do barração interditado -, lugar que continua sendo um ambiente de encontro festivo para brincar o carnaval.