Escola de Música Bom Menino
Onde está?
Rua do Giz, n. 483, Desterro.
O que é?
A Escola de Música Bom Menino é um projeto de formação musical gratuito em funcionamento desde 1992. Originalmente foi criado para atender as crianças do bairro Desterro. Contudo, atualmente, a relevância da Escola de Música Bom Menino ultrapassa os limites dos bairros que compõem o Centro Histórico, sendo considerada um projeto de excelência e de alta procura (Figura 21).
Para ingressar na escola, podem se inscrever quaisquer estudantes entre 8 a 14 anos de idade que recebem, além da formação musical qualificada, refeição e uniforme gratuitos e empréstimo de instrumento musical. Os candidatos são selecionados por um teste de aptidão musical.
Com um método de ensino de música coletivo implantado pelo primeiro professor do projeto e regente da banda, maestro Tomaz de Aquino Leite, importante nome na formação musical maranhense (Pereira, 2018), os alunos da Bom Menino aprendem primeiro teoria musical (com aulas duas vezes por semana durante seis meses). A seguir, depois de passar por um teste escrito recebem o certificado verde. Então, passam a praticar com os instrumentos específicos escolhidos por eles ( sopro: flauta, clarinete, saxofone, trompete ou trombone, e percussão, bombo, caixa e pratos). Esta etapa chamada de escolinha dura até dois anos, com aulas duas vezes por semana, e então recebem o certificado azul.A terceira etapa é a participação na Banda Bom Menino, quando depois de mais de dois anos de prática e apresentações diversas recebem o certificado amarelo. Da Banda, estudantes podem participar até os 18 anos de idade - “mas a Escola nunca fecha as portas para os estudantes que querem continuar”, afirma o presidente da Escola desde sua criação, Raimundo Quintilhano.
Após cumprir essas três etapas (teoria musical, escolinha de prática instrumental e Banda), os estudantes recebem uma declaração de aptidão no seu instrumento com a tradicional cerimônia solene e missa no Convento das Mercês. Neste momento, tão esperado pelos familiares e estudantes, o Desterro se enche de orgulho e celebra este projeto duradouro que, efetivamente, transforma a realidade de milhares.
A Banda Bom Menino se apresenta em diversos eventos cívicos e festejos religiosos populares, atendendo gratuitamente as solicitações oficiais de convite. O presidente Quintilhano relembra que antigamente as procissões católicas eram realizadas com o acompanhamento musical de banda e que com a Banda Menino essa tradição pode ser revivida. Independente da religião, os estudantes são incentivados a se apresentarem nos espaços religiosos que solicitam apresentação, sejam igrejas ou terreiros. Relembra Raimundo: “Estamos trabalhando com a prática profissional da música, mesmo vários estudantes sendo evangélicos, eles tocam obrigatoriamente em festejos de santos, como Santo Antônio, e nunca tivemos problemas quanto a isso”.
Todos os instrutores de música da Banda são formados pela própria Escola, como a atual maestrina Nilze Cavalcante.Ao longo desses mais de trinta anos de existência, a Bom Menino já formou aproximadamente 10 mil jovens. Dos formados, inúmeros seguiram carreira musical adentrando no mercado de trabalho como músicos profissionais e professores, outros tantos passaram em processos seletivos para compor bandas militares, como da Guarda Municipal, da Polícia Militar, do Exército, da Aeronáutica e da Marinha. Além do mais, muitos outros tiveram oportunidade profissional em movimentos artísticos e culturais como Bumba boi e carnaval (Lima, 2006). Raimundo acredita que cerca de 80% dos músicos profissionais da Banda Militar do Maranhão foram formados pela Bom Menino.
Raimundo Nonato Quintihano Pereira Filho, 62 anos de idade, trabalha na seção administrativa da Banda desde a origem do projeto, quando na época era secretário do diretor-geral da Fundação da Memória Republicana com sede no Convento das Mercês. Morador do bairro Cohama, diz que vive mais tempo no Desterro do que em sua casa ao longo desses 31 anos de dedicação. “É um bairro acolhedor, as pessoas me conhecem pelo nome, eu me reconheço como morador do Desterro - só vou para casa para dormir”, diz ele.
No contexto histórico de criação da Escola Bom Menino, é preciso pontuar que a Banda Marcial, com sopro e percussão, já fazia parte da paisagem sonora do Desterro. De 1905 a 1980, o Convento das Mercês funcionou como quartel da Polícia Militar, do qual se incluía a Banda da Polícia Militar do Maranhão. Moradores mais antigos comentam que era frequente, nesse período, a Banda da Polícia ensaiar desfilando pelas ruas do Desterro, às vezes com paradas mais longas no Largo, em frente à Igreja do Desterro. “Todas as pessoas saiam na porta e na janela, pois sabiam o horário que a banda ia passar. As crianças viviam nas ruas, jogando bola e empinando papagaio, indo se divertir na maré. As crianças iam correndo atrás da banda e adoravam a música [...] era emocionante para todos”, relembra Dalmir Campos.
Ainda que a música já fizesse parte da paisagem do Desterro, o acesso à formação musical era restrito aos militares. Assim, a Escola de Música Bom Menino nasceu da iniciativa do diretor da Fundação da Memória Republicana Brasileira, Aluísio de Abreu, por orientação de José Sarney, no intuito de promover formação musical gratuita e acessível às crianças do Desterro.
Maria Elizabeth Araújo Guterres, 64 anos de idade, assim como Raimundo também acompanhou toda a criação e desenvolvimento do projeto da Escola de música Bom Menino. No ano de 1992, pouco tempo antes da criação do projeto, Maria Elizabeth foi contratada para ser secretária do diretor executivo do Convento das Mercês, o ex-tenente Aluísio de Abreu Lobo (1919 - 2012). Moradora do bairro Monte Castelo, a trabalhadora está prestes a se aposentar após 33 anos dedicados à Escola Bom Menino no Desterro. Em suas palavras, ela “ajudou a parir o projeto” que, desde sua fundação foi muito consistente, baseando-se na disciplina, em prol da cidadania e da formação socioeducativa e profissional. “Aluísio não queria que nenhuma criança tocasse de ouvido, queria que todos aprendessem a parte teórica muito bem”, relembra Maria Elizabeth à respeito de Aluísio Lobo - pessoa importante na história do projeto que dá nome ao auditório da Escola, desde o seu falecimento.
Em fins da década de 1980 e durante a década de 1990, o Convento das Mercês passou por uma grande reforma para receber a Fundação da Memória Republicana com o acervo de Sarney, sendo comum José Sarney visitar o Convento para acompanhar o andamento da reforma. À época, várias crianças brincavam nas ruas próximas do Convento, ou mesmo no pátio externo, e corriam para pedir dinheiro ao Sarney quando o viam.
Em entrevista à Lima (2006, p.86), Aloísio Lobo comentou: “com o tempo esse número [de crianças] começou a aumentar de modo a não se poder manter ajuda diária” e diante da situação, indagando-se sobre como agir, “Concluíram que a criação de uma escola de música poderia despertar em crianças e adolescentes o interesse pela música, direcionando-os para as perspectivas profissionais e, principalmente, tirando-os da ociosidade”.
Pontua-se que brincar não é ociosidade. Só então é possível entender que o contexto da criação da Escola de Música Bom Menino está relacionado com proporcionar opções socioeducativas às crianças, retirando-lhes da situação em que se encontravam: na rua e sem supervisão de um adulto responsável.
Então o serviço social da Fundação organizou uma comissão para convidar as famílias do bairro. Maria Elizabeth, que acompanhou esse período enquanto secretária do Convento, relembra que no início foi um processo de convencimento dos responsáveis das crianças: “A assistente social Denise Murad conversou de casa em casa para que os moradores permitissem e apoiassem a participação dos seus filhos”. Dona Sandra (ficha deste dossiê) foi uma dessas pessoas que consentiu e seu filho participou da primeira turma composta por 40 crianças, todas moradoras do Desterro, no ano de 1992.
Depois que essa primeira turma já tinha estudado teoria e estavam estudando prática musical, a Escola de Música Bom Menino foi fundada, oficialmente, em 19 de agosto de 1993.
De 1992 a setembro de 1997, o projeto continuou no Convento das Mercês, após essa data a Escola obteve seu espaço próprio: um casarão histórico na rua do Giz comprado e reformado pelo governo municipal para esse fim, visto a demanda de expansão.
Muitos moradores do Desterro frequentaram a Escola de Música Bom Menino, nem todos chegaram a se formar nas três etapas e obter certificação, mas todos reconhecem o valor formativo desse lugar. Entre eles: Daniel, proprietário do Boteco do Maneco (ficha deste dossiê) e Mestre Preguinho, do Tambor dos Onças e presidente da Fábrica de Artes (ficha desse dossiê) são formados em percussão; Bruna, rainha da bateria, coreia do Tambor dos Onças e uma das diretoras da Fábrica de Artes, é formada em flauta; Bigorna, também da Fábrica de Artes e professor de música no IFMA, é formada em trompete. Outrossim, é comum encontrar histórias de famílias inteiras que estudaram na Bom Menino, inclusive vindas de bairros bem distantes para estudar no Desterro.
Diferentes grupos culturais possuem integrantes formados na Bom Menino. Quanto ao Boi Lendas e Magias (ficha desse dossiê), por exemplo, ‘Acho que todos os músicos que tocam na nossa orquestra fizeram escolinha lá. É um trabalho sensacional, acho que não deve acabar nunca, para mim é o projeto mais importante do Desterro”, afirma o presidente do Lendas, José Valdecir da Costa Monteiro. Luiz Claudio Cutrim, atual presidente da Associação de Moradores do Desterro, também tocou na banda e enfatiza a importância em sua formação como músico, mas, sobretudo, como cidadão.
O impacto da Banda do Bom Menino extrapola, inclusive São Luís, com o resgate e criação de bandas de música em várias outras cidades maranhenses. Raimundo aponta que “um dos músicos formados pelo nosso projeto está trabalhando na formação de novas bandas no interior [do Maranhão] e isso é muito gratificante”.
Além de todos esses impactos positivos, são vários os prêmios conquistados pela Escola de Música Bom Menino. Apesar disso, a música como fomento à educação de crianças e jovens não é garantida na agenda política do governo municipal ou federal.
Por vários anos, a Bom Menino não conseguiu apoio pela Lei de incentivo à Cultura, e quando passaram a ter o repasse de verbas foi sempre irregular. Dada a instabilidade financeira, os profissionais envolvidos na Escola trabalham porque acreditam no projeto “quem vai perder se a gente parar são as crianças. A música pra eles é muito importante. Até na saúde pública, com a chamada depressão, a música ajuda muito. É uma terapia para eles que vivem situações bem difíceis, pensando nos problemas que tem cada um desses meninos que aqui frequenta... Então, a gente veste a camisa, passa certas dificuldades, mas não deixa o projeto morrer”, avalia o diretor Raimundo ciente das questões econômicas e políticas envolvidas, e do acúmulo de funções e responsabilidades sobre profissionais e espaços que, praticamente, lutam com seus esforços próprios.
No ano de 2025, estão ativos 400 estudantes entre as turmas do período vespertino e matutino. Uma das exigências é que seja matriculado no ensino regular e que não seja reprovado no ano letivo. Uma vez por mês ocorre reunião obrigatória de pais e mestres. As aulas acontecem às terças e às quintas, e os ensaios da Banda segunda, quarta e sexta-feira, sendo neste último dia que ocorre o esperado passeio matinal pelas ruas do Desterro - tradição seguida há cerca de vinte anos.
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