O que é?
A Fábrica de Artes é um projeto sócio-cultural-educativo comunitário e gratuito que se originou no ano de 2018 a partir do processo de ocupação de um prédio abandonado, antiga Fábrica Oleama, por moradores do Desterro que compunham a Associação Cultural Os Caras de Onça. Após negociação com o governo do estado, o prédio foi totalmente reformado entre os anos de 2019 e 2025, quando então a Fábrica foi reinaugurada no mês de abril (Figura 21). Contudo, cabe salientar que o trabalho de formação percussiva e as diversas ações sociais oferecidas no Desterro não cessaram, e muito pelo empenho da diretoria e apoiadores da Associação Caras de Onça.
A Associação Cultural Os Caras de Onça teve seu estatuto reconhecido oficialmente no dia 24 de julho de 2015, mas a ideia vem de alguns anos antes: o grupo de amigos que se intitulavam “Caras de Onça” foi idealizado por Humberto Jorge de Melo e Silva ( in memorian ), junto com mais alguns amigos moradores dos bairros Portinho, Desterro e Centro, que se juntavam para “tirar um lazer” aos finais de semana. Na época, existia a Banda Caras de Onça, com amigos que se reuniam para ouvir música e brincar com maizena. Era mais um tipo de divertimento, comentam os moradores antigos que participaram dessa primeira fase.
José Domingos Lindozo Filho, 37 anos, conhecido também como José Preguinho e Mestre Preguinho, é the atual presidente e o principal oficineiro da Fábrica de Artes. Nascido e criado no Desterro, sempre fala com muito carinho de Humberto Jorge e faz questão de mencionar o nome desse antigo morador do Portinho que tanto ajudou a comunidade. Já conhecendo Humberto Jorge, desde garoto, foi no ano de 2014, contudo, que José Preguinho diz ter sido resgatado pelos Caras de Onça. Começou a conviver com os “coroas” que formavam os Caras de Onça a convite de Humberto Jorge e foi retomando o gosto pela cultura - já que Preguinho tinha formação musical em percussão na Escola Bom Menino anteriormente (entre 2002 e 2004) e vivência cultural em vários ritmos e manifestações culturais maranhenses desde criança. Na época, José Domingos vivia “fazendo coisas erradas, fumando e vendendo drogas nos cantos [esquinas]”, como faz questão de mencionar sempre que fala de sua história pessoal na qual muitos jovens se identificam. Percebendo o talento musical e didático de Prego em ensinar, Humberto Jorge o incentivou: “Como trazer a comunidade para os Caras de Onça? Ele me perguntou. Vamos levar a cultura! Eu respondi”, recorda Mestre Prego (Agência Tambor, 2025).
Então começou outra fase nos Caras de Onça. A primeira manifestação cultural que foi ensinada no intuito de fomentar a participação da comunidade foi o Tambor de Crioula Os Onças. Sem parelha de tambores próprios no início, pediam emprestado ao Tambor [de crioula] da Paz organizado pelo Sindicato dos Arrumadores e faziam a roda na Travessa do Portinho com a ajuda de outras pessoas que já sabiam tocar e dançar. “Humberto gostou e pediu mais. Depois veio o Batuque da Onça [ritmos de escola de samba] e o Touro Dominador [manifestação cultural-religiosa de um touro encantado na linha do vodum Légua Bogi Buá da Trindade, dançado pelas mulheres mais idosas]”. Começaram a fazer oficinas em uma casa alugada por Humberto Jorge, especialmente para isso, na Travessa do Portinho, e outras pessoas foram se aproximando. Então, no final de 2014 para 2015, formou-se a diretoria da “Associação Cultural Amigos do Portinho” com pessoas jovens, como queria Humberto.
Mestre Prego vem de uma família muito espiritualizada - seguidores da Umbanda raiz, como denominam, muito atrelada ao Tambor de Mina -, a presença do Caboclo da Ilha, entre outros guias de luz, ajudaram o jovem a se afastar de “coisas erradas e do dinheiro fácil” que vinha das poucas opções no bairro de grande vulnerabilidade socioeconômica, nisso a cultura e a fé foram fundamentais.
Em 2018, Os Caras de Onça deram mais um passo para expandir o trabalho. Já com um trabalho consistente na comunidade com oficinas na Travessa do Portinho e praças, alguns moradores apoiaram Benedito Furtado Júnior (52 anos, morador do Desterro e membro da diretoria dos Caras de Onça desde sua fundação) e Mestre Prego e fizeram uma comissão para ocupar um grande prédio abandonado no Desterro.
A fábrica Oleama funcionou no prédio até 1975, quando se mudou para um terreno maior na BR-135. Apesar de o prédio da antiga fábrica pertencer ao Estado do Maranhão e já haver um projeto de reforma para transformá-lo na Secretaria de Estado da Economia Solidária (SETRES), o local seguia fechado por mais de quatro décadas. Nesse ínterim, o prédio abandonado vinha sendo usado por diversos usuários de drogas, ponto de revenda de drogas e esconderijo para pessoas que cometiam delitos. A ocupação do mesmo pela Associação Cultural Os Caras de Onça mudou de forma significativa aquela área que era evitada por pedestres por conta dos constantes assaltos.
Sobre esse período, Mestre Prego conta que “depois que as pessoas que estavam no local foram retiradas, precisaram de nove caminhões para tirar coisas velhas de lá, porque as pessoas roubavam e guardavam lá dentro. Conseguimos até reabilitar algumas pessoas que viviam em situação de rua e vulnerabilidade dentro do prédio”. O uso do espaço para prática de atividades culturais diversas, não só movimentou a rua da Estrela, como oportunizou outras possibilidades de acesso à cultura para a comunidade do Desterro e bairros próximos, conclui Mestre Prego (Agência Tambor, 2025).
No início, a Fábrica de Arte teve ajuda do Sindicato dos Arrumadores. André Campos, defensor público nascido e criado no bairro, também acompanhava a movimentação desde o início. “Antes a polícia era sempre chamada pois havia invasor, mas depois que a Fábrica de artes passou a ocupar o local, não teve mais este problema. Os policiais sempre davam parabéns para a diretoria, por manter o local limpo e organizado”, relembra Mestre Prego.
À época, de forma colaborativa, a Associação junto com outros moradores fez vários mutirões e revitalizaram o espaço: “A gente limpou, pintou e começou a fazer oficinas, ações sociais, atendendo mães, adolescentes, idosos. [...] A gente deu vida ao prédio”, comenta o Mestre.
Com ajuda de voluntários, a Fábrica de Arte passou a oferecer oficinas gratuitas de circo, música e capoeira, além de atividades de culinária, reforço escolar, sessões de cinema, encontros festivos em datas comemorativas e aniversários dos membros envolvidos e efetividades religiosas (Santo Antônio, São Jorge, São Benedito, Nossa Senhora do Desterro e Nossa Senhora da Conceição).
A fachada da Fábrica de Artes foi colorida com grafite e grandes máscaras produzidas pelo artesão nascido no Desterro e membro da Diretoria Wanderson Cardozo Alves em diversas oficinas artísticas oferecidas gratuitamente. Para Wanderson, participar do projeto é uma satisfação, pois é um modo de retribuir a amizade e o companheirismo dos Caras de Onça no Desterro. Assim, como, é uma maneira de fortalecer a instrução e formação com cursos que despertem o interesse nos jovens mais vulneráveis e carentes, como aconteceu quando ele era jovem. Para o artista e artesão, a realização desse tipo de trabalho voluntário, especialmente em sua comunidade de origem, é um modo de transformar vidas, como a dele, que foi transformada ao se profissionalizar em cursos de restauração de objetos e instrumentos ofertados gratuitamente no Centro Histórico.
Após ocupar o prédio por cerca de um ano e meio, notaram que a estrutura estava precária. Mesmo consertando algumas infiltrações com a ajuda de uma empresa contratada pelo governo do estado, foi necessário que André Campos encaminhasse a discussão para o deputado estadual Roberto Costa que solicitou a reforma do prédio.
O acordo inicial firmado sobre o futuro da Fábrica de Artes entre a Associação cultural Os Caras de Onça e a Secretaria de Estado da Infraestrutura (Sinfra) estabelecia um prazo previsto de oito meses de reforma com o prédio desocupado. Mas a reforma durou três anos e mais três anos para, por fim, Os Caras de Onça poder usar novamente o prédio.
Enquanto isso, o governo do Estado pagou um aluguel social para uma sede provisória referente às atividades que vinham sendo desenvolvidas na Fábrica de Artes. A Associação se instalou na Rua da Estrela, 517, em uma das salas do prédio onde também funciona o Sindicato dos Arrumadores. Todavia, como o espaço interno era bem menor, os encontros aconteciam no Beco do Deserto - preenchendo, assim, os arredores de cores, som e movimento, por isso os moradores passaram a chamá-lo de Beco dos Onças, já que não era mais deserto ali.
Nesse ínterim, a Associação Os Caras de Onça fez parcerias com outros grupos, como com o bloco Só Safados, que Preguinho já tocava. Fernanda Preta, produtora cultural e cantora do grupo afirma: “Essa mobilização espontânea que eles fazem é linda demais, porque tá para além de ter recursos financeiros. É uma comunidade junta batalhando para mudar uma realidade cruel. São gigantes no que estão fazendo ali no Desterro” (Atos e Fatos, 2019).
Quando da entrega do prédio para a Fábrica de Artes, em março de 2025, a Associação O Caras de Onça teve que dividir o espaço com a SETRES. Apesar de não ter custos com água, eletricidade, segurança e limpeza, a manutenção com os produtos de limpeza e aquisição de mobiliário e materiais para as oficinas fica por conta da Associação, que não possui nenhum financiamento, a não ser a ajuda para lanche com alguns apoiadores locais e valores que recebe por apresentação ou participação em eventos do Tambor de Crioula.
Atualmente, a Associação Cultural Os Caras de Onça, com sede na Fábrica de Artes, é reconhecida, tanto interna, quanto externamente, por seu trabalho. “Muitos jovens agradecem a ele [Mestre Prego] pelos ensinamentos não só de percussão, mas ensinamentos para a vida”, diz Vó Graça (Maria da Graça Torres), mãe de Mestre Prego, nomeada carinhosamente de “motor da Fábrica de Artes”, uma mulher sempre presente nas atividades dos Onça desde a origem com Humberto Jorge.
Mestre Prego faz questão de frisar que a Fábrica de Artes não é apenas cultural, mas também social e educativa. Mais de 100 pessoas já passaram pelas oficinas e vários dos integrantes atuais estão com os Caras de Onça há mais de sete anos, ajudando a formar outros e a se apresentar na cidade em diversas ocasiões em que são convidadas.
“Trabalhar com a juventude e com a criança é onde tem o futuro de tudo. Trabalhar com educação, esporte, lazer e cultura ... tira muitas situações de crianças ficar em “canto” e ver coisas ruins” [...] “Nós que estamos à frente, temos que cuidar não apenas dessa parte cultural, mas do humano, saber o que o outro precisa. Se for um botijão de gás, uma cesta básica, um remédio”, comenta Mestre Prego em entrevista (Agência Tambor, 2025).
Com isso, a comunidade vai cada vez confiando mais no trabalho da Associação Cultural Os Caras de Onça e incentiva os filhos a participarem das atividades da Fábrica de Artes, enquanto espaço de desenvolvimento socioeducativo seguro e respeitoso.
Uma das regras do estatuto da Associação para se participar das oficinas e apresentações, algo sempre lembrado pelo Mestre Prego, é estar assíduo na escola. Valores como respeito à família e aos mais velhos, fé, perseverança, humildade e “pé no chão” são palavras constantemente repetidas por José Domingos. José recebe convites para falar sobre o “poder cultural de transformação”, a exemplo de sua vida e do que os Caras de Onça vêm fazendo.
Isso tudo fez com que a Fábrica de Artes fosse considerada uma das quinze práticas socioespaciais insurgentes de refuncionalização e reestruturação no Centro Histórico de São Luís (Carvalho, 2023).
A Associação tem um calendário movimentado entre ensaios, apresentações e ações sociais. Costumam fazer parcerias com outros grupos de cultura popular, sendo convidados para ministrar oficinas e compartilhar sua história inspiradora dos Caras de Onça. Em datas comemorativas, como nos dias de Santo Antônio, São Jorge, São Benedito, dia das mães, dos pais e das crianças são oferecidos gratuitamente alimentos a todos os interessados, com ampla divulgação. Bruna Araújo, esposa de Mestre Prego, e sempre atuante na Fábrica de Artes, é a responsável pelo preparo dos lanches, caldos, feijoadas e outros alimentos. Os muitos voluntários que ajudam no preparo e organização da Fábrica servem alimento, solidariedade e afeto. Acompanhado por momentos de oração, roda de tambor e roda de conversa, as ações sociais fortalecem os laços intracomunitários e produzem um lugar de segurança e referência social, cultural e educativa.
“A gente tem toda a documentação em dia, tanto no município, quanto no estado. Mas mesmo assim, a gente é barrado em editais. Isso dói. Um projeto como o nosso poderia estar alcançando muito mais gente se tivesse apoio contínuo do poder público, e não só na época do São João”, desabafou Mestre Prego (Agência Tambor, 2025). A manutenção do trabalho é sustentada por apoios voluntários e doações locais.
“Eu abri mão de muita coisa pra viver esse projeto. Hoje, com 37 anos, sem vícios e com a cabeça no lugar, só tenho a agradecer aos mestres que me formaram, à minha família, e a todo mundo que acredita que cultura é ferramenta de transformação”, finaliza Mestre Preguinho (Agência Tambor, 2025) que após ter recebido o prédio da Fábrica de Arte reformado e tem uma agenda diversificada e constante no lugar já foi procurado para dar entrevista em vários meios de comunicação graças ao trabalho de destaque que vêm realizando.
Atualmente, são disponibilizadas, gratuitamente, para todos interessados, sem inscrição prévia, as oficinas de: Ritmos de Bumba Meu Boi (segunda-feira), Tambor de Crioula (terça-feira), Ritmos Tambor de Mina (quarta-feira) e Ritmos de Escola de Samba (quinta-feira), no período das 19h às 21h. A Associação também tem planos para inaugurar uma biblioteca comunitária e inserir outras oficinas como cineminha, cursinho pré-vestibular, reforço escolar, capoeira e gastronomia maranhense.