O que é?
O bairro do Desterro concentra diversas artes e artistas que se expressam através da música (Figura 38). Isso inclui moradores-artistas atuais, quanto outros sujeitos que se dizem inspirados pelo Desterro, e lá aprenderam seus ofícios. São muitos os moradores de outros bairros de São Luís e de cidades vizinhas que alcançaram suas formações musicais no Desterro.
Um dos ícones artísticos do Desterro é Alcione - ludovicense nascida em 1947, intérprete de música popular brasileira, instrumentista e compositora, reconhecida nacional e internacionalmente -, carinhosamente conhecida como “marrom”. Referenciada por moradores que tiveram contato com ela quando morava no bairro, Alcione migrou para o Rio de Janeiro aos 20 anos de idade.
Alguns dos moradores do bairro expressam um pouco das suas relações e memórias com Alcione. Seu Zeca (José Henrique Pinheiro, 75 anos), viveu no Beco Feliz, vizinho da casa onde residia o João Carlos Nazaré, pai de Alcione, este, por sua vez, maestro da Banda da Polícia Militar instalada no Convento das Mercês. Seu Dalmir Campos costumava ir para a escola caminhando junto com os irmãos de Alcione, e conta que, ela, mesmo depois de tão famosa, retornava ao bairro alegre e humilde, como sempre fora. Preguinho, presidente do Tambor dos Onças (ficha deste dossiê), destaca a importância da figura de Alcione para o bairro do Desterro, enquanto possibilidade de viver a partir de sua expressão artística.
Ainda na música, nascido, criado e residente no Desterro, Walfredo Ribeiro Martins, de nome artístico Walfredo Jair, tem cinquenta anos de carreira. Conhecido como “rei do bolero”, Walfredo começou a cantar aos 11 anos de idade, incentivado por sua mãe, Dona Benedita. Sempre que perguntado sobre músicos no bairro, o nome de Walfredo era um dos primeiros a ser citado.
Já Romildo Sousa Júnior, conhecido popularmente como Bigorna, é músico profissional multi-instrumentista e iniciou sua carreira na Banda Bom Menino, localizada no Desterro (ficha deste dossiê). Residente por muitos anos no Desterro, Bigorna já fez parte da Flor do Samba, do Tambor dos Onças e já foi professor de trompete e percussão na Bom Menino. Atualmente, é professor no Instituto Estadual do Maranhão (IEMA) e é presença constante nas atividades organizadas pela Fábrica de Artes (fichas deste dossiê), pela qual é um dos diretores e referência para muitas pessoas do bairro Desterro, em especial, para os jovens.
Dos lugares que oferecem condições à essa formação musical tão sentida no Desterro, destacam-se dois: a Escola de Música do Bom Menino e a Fábrica de Artes. Contudo, a própria convivência com as manifestações culturais, desde muito cedo, como o carnaval, o bumba boi e o tambor de crioula, já parece motivar fortemente a formação musical das várias gerações que se dedicam à cultura popular no Desterro.
Através da prática musical e de uma comprometida formação humana, em comum, a Escola de Música do Bom Menino e a Fábrica de Artes sugerem seguir um “outro caminho”, um caminho que tenta afastar crianças e jovens de baixa renda de uma realidade com poucas opções.
Em várias das entrevistas concedidas sobre a função socioeducativa da Bom Menino, Raimundo aponta a importância da escola para diversas manifestações culturais: “A escola de música não é só um local onde se vem aprender música, é um sinônimo também de sustentabilidade. Houve um resgate do músico, da música, com a criação da Escola Bom Menino. Porque nós sabemos que o Maranhão tem as suas raízes culturais folclóricas baseada no Bumba Boi, no carnaval de rua. O Bumba Boi, por exemplo, se não tivesse tido a Escola de Música na história recente, nós não teríamos mais em São Luís o Bumba Boi com sotaque de Orquestra, porque não tinham mais músicos para isso” (O Imirante, 2023).
Já José Domingos Lindozo Filho, Mestre Prego ou Preguinho, líder dos Caras de Onça, grupo que ocupou e conduziu a estruturação da Fábrica de Artes, afirma em entrevista: “a música é muito boa pra isso. A gente trabalha em cima dessa juventude. Digo a eles que a gente tem que viver a vida estudando, respeitando o próximo e com humildade. Com o pé no chão a gente vai conseguir nossos objetivos” (Atos e Fatos, 2019).
Mestre Prego, formado pela Bom Menino, ressalta que antes mesmo de adentrar nessa instituição, com seus 14 anos de idade, e obter instrução formal em percussão entre os anos 2002 e 2004, quando chegou a participar da Banda de Elite da Bom Menino, ficou encantado pela cultura popular. Para ele, os mestres da cultura popular foram sua primeira escola de formação.
Durante cinco anos de sua infância, José Lindoso e sua família moraram no bairro João Paulo e lá conheceu o bloco de carnaval “Os Liberais”, daí que ainda com 7 anos de idade procurou o Mestre Zé Raimundo para permitir que participasse do bloco. Começou tocando repique. No segundo ano desfilou na avenida tocando tarol. Já no terceiro ano, com 9 anos de idade, desfilou tocando maracanã - espécie de “surdinho”, explica José ao recordar que o seu dom para percussão foi guiado e manifestado desde cedo.
Além disso, a vivência em Terreiros de Mina e Umbanda, acompanhando sua mãe, praticante da religião, foi cada vez mais afinando os ouvidos de Mestre Prego para os ritmos dos tambores, ferro (como chamam o agogô de uma campânula) e cabaças (como chamam o xequerê). Apesar de os tamborzeiros mais antigos não ensinarem crianças pequenas, foi observando, ouvindo, sentindo e tentando nas oportunidades possíveis que José aprendeu e aprimorou os ensinamentos que hoje repassa na Fábrica de Artes.
Já com 12 anos, quando retorna a morar no Desterro, é que Mestre Prego entra na Flor do Samba e começa a participar das oficinas no Sindicato dos Arrumadores, aprendendo e recebendo o incentivo de mestres nos ritmos de carnaval e tambor de crioula.
Faz-se necessário lembrar que todo esse processo socioeducativo musical que ocorre, não raramente, em bairros populares assistidos por manifestações de cultura popular, para enfatizar a importância essencial da figura dos mestres de cultura na formação (pessoal e profissional) de tantas crianças e jovens. Ainda tão pouco reconhecidos, social e economicamente, os mestres fazem trabalhos contínuos de valorização cultural que geram sentimentos de identidade e pertencimento que perduram toda a vida.
Antes mesmo de adentrar em uma escola de música, muitas vezes são as vivências que proporcionam aprendizados, afetos e aspirações às crianças e jovens, o que amplia horizontes e perspectivas de vida, como no caso de Mestre Prego que, com quase 40 anos de idade, realiza o sonho de fazer um projeto social, sendo exemplo para outros.
Disso, a importância de políticas públicas que apoiem a formação musical tanto em espaços institucionais formais, como a Escola de Música Bom Menino, que ainda assim passa dificuldades financeiras (vide ficha), como em espaços informais, a exemplo da Fábrica de Artes, que oportuniza vivências e oficinas de ritmos diversos da cultura maranhense.