O que é?
A Igreja São José do Desterro (Figura 23) data do século XVII e trata-se de uma forma simbólica espacial de relevância histórica e afetiva na formação socioespacial da capital São Luís, conferindo identidade ao bairro Desterro, que viria a ser nomeado e reconhecido a partir de tal Igreja.
Originalmente, aproveitando-se da topografia em um terreno mais alto próximo a costa litorânea, fora construída por volta de 1618 uma ermida feita de barro e coberta de palhas, dedicada à Nossa Senhora do Desterro - devoção muito difundida pela colonização portuguesa, em referência à padroeira dos imigrantes desterrados. A porta principal se abria em direção à praia (Marques, 2008), sendo que, atualmente, a porta da Igreja construída no lugar da ermida é voltada para a Rua da Palma, abrindo-se para o Largo (Figura 24).
Em 1641, uma tropa de holandeses protestantes ancorou na praia do Desterro, saqueando a igreja e destruindo objetos sacros, sendo expulsos do Maranhão, definitivamente, em 1644 pelos portugueses.
Em 1654, os missionários mercedários que ficaram responsáveis pela edificação do Convento de Nossa Senhora das Mercês sugeriram que fosse construída no lugar onde estava localizada a ermida de Nossa Senhora do Desterro, entretanto, a construção do convento foi realizada em outro terreno, no mesmo platô, próximo uns 250 metros da ermida histórica.
Após séculos sem reformas, a Igreja Nossa Senhora do Desterro desmoronou. Em 1832, por esforços próprios, recolhendo donativos e materiais coletados nos arredores, José Lé, ex-escravizado, morador do Desterro, começou a reerguer o templo em 1835, contudo, faleceu antes de concluí-lo. O escrivão Marcelino José Antunes Pimenta (conhecido por José do Queixo) foi o responsável por angariar esmolas e finalizar a reconstrução da Igreja, em 14 de abril de 1839. No Jornal Pacotilha, de 6 de junho de 1881, n.48, por exemplo, foi publicada a seguinte nota: “Falleceu hontem Marcelino José Antunes Pimenta, a quem se deve a reconstrução da egreja de S. José do Desterro”.
Em homenagem a esses dois homens que a ergueram, liderando a ajuda de outros fiéis, o templo foi consagrado ao patrono São José e renomeado para Igreja de São José do Desterro. A obra foi finalizada em 21 de outubro de 1869, como consta no Jornal Pacotilha, e “a igreja foi abençoada em 21 de novembro do mesmo ano, atraindo uma grande multidão ao largo, estando presente o presidente da província Brás de Sousa" (Santana, 2016).
Com o passar dos anos, a Igreja caiu em abandono novamente e objetos sacros foram furtados. Em 1865, devido ao estado de deterioração da Igreja, a Câmara Municipal encaminhou ofício ao Bispo, solicitando a permissão para demolir as paredes que ainda restavam e construir uma praça arborizada e instalar o mercado do peixe no local.
A insatisfação com essa proposta está registrada no Jornal n'O Constitucional, nº 1, ano IV e no religioso Jornal d'A Fé, nº 26, de 1866 (Santana, 2016). Um dos principais argumentos contra o projeto da Câmara se baseava na importância histórica do templo e na necessidade do reconhecimento e dedicação de José Lé e José do Queixo, que, motivados pelo espírito religioso, reedificaram a Igreja. A comunidade de fiéis, em consonância com o Bispo, contando com o apoio financeiro da sociedade maranhense, reconstruiu o templo, com a nova Igreja sendo inaugurada na missa do dia 21 de novembro de 1869. O gradeado na torre sineira, sustentado por coruchéus, o coro e as três janelas da frente também são desse ano, como constam inscritos nestes objetos (Lopes, 2008).
Cinquenta anos mais tarde, a Igreja foi interditada novamente devido a deterioração do templo. A imagem do padroeiro foi levada para a Igreja da Sé e os demais objetos para a Igreja de Nossa Senhora do Rosário. A Igreja de São José do Desterro foi reaberta em 1943, passando por restaurações nos anos de 1954, 1975, 1981 e 1994.
Em 1974, considerando a Igreja e o Largo do Desterro como um conjunto arquitetônico e paisagístico, o IPHAN tombou tal arranjo espacial como patrimônio histórico, registrando-o no Livro do Tombo Belas Artes (inscr. Nº 433, de 23/12/1955, processo 494-T-1952).A riqueza arquitetônica da Igreja do Desterro se deve, entre outros elementos, à planta pentagonal, diferente dos outros templos da cidade. O altar-mor tem piso de cantaria e o retábulo características neoclássicas, encimado por imagens de ferramentas, fazendo alusão à profissão de São José. A maior distinção, entretanto, se vê no frontão da Igreja “com arcos moçárabes, afastando-se assim dos frisamentos e relevos de gosto neoclássico que emolduram o restante da fachada” (Lopes, 2008, p.60).
A Irmandade de São José do Desterro é bastante citada ao longo do ano de 1910 no jornal diário A Pacotilha, quanto à organização de festejos - sobretudo ao “Glorioso São José”. Todavia não se tem precisão quando e por quais motivos a Irmandade se dissolveu. Uma das práticas culturais religiosas que têm um contínuo histórico considerável é a ladainha cantada em latim, com registro em jornal desde 1884 (Pacotilha, 1884), e que acontece atualmente, especialmente por Vó Graça, seja na Igreja ou em outros espaços.
Atualmente, a Igreja é administrada pelo Museu Histórico e Artístico do Maranhão, apesar da administração fazer reparos periódicos, “as contribuições das coisas pontuais, como trocar uma toalha, fazer uma decoração, varrer'', são realizadas pelos fiéis que congrega tanto moradores do bairro quanto pessoas de outros bairros. Para além dessa manutenção governamental, “é necessário manter a Igreja ‘viva' pelos devotos que frequentam a Igreja”, assinala Gilsivaldo Gomes Fonseca, conhecido como Vadinho, morador do bairro e membro do Conselho Paroquial da Igreja.
Mesmo com as obras estruturais de revitalização realizadas em março de 2022, durante o governo de Flávio Dino, Vadinho aponta que ainda há “sérios problemas na cobertura: uma queda d'água que desce da cobertura e compromete o piso de cima, no barroteamento que segura o piso no forro da sacristia''. Problemas também quanto a iluminação, sobretudo da fachada da Igreja, o que está movimentando os fiéis a angariar recursos financeiros para restabelecer a iluminação e fazer uma fiação elétrica segura.
O laço de fraternidade entre os moradores do bairro é fortalecido com as memórias compartilhadas de batizados, casamentos, velórios, festejos e reformas realizadas, além do próprio cotidiano na Igreja (organização, arrumação, participação nos ritos litúrgicos, etc.) e no seu entorno (conversas, encontros casuais, esportes, brincadeiras, etc.) - como contam Dalmir Campos e Ana Portela, fiéis engajados na Igreja e moradores da mesma rua que o templo há mais de sete décadas.
Mirterlandes conta que, décadas atrás, quando o padre morava na Igreja do Desterro, os jovens estudavam no interior do templo devido ao silêncio ou, mesmo, estudavam em frente à igreja, no Largo, até a meia noite, já que naquela época a segurança era muito maior.
Motivo de orgulho para os moradores, a Igreja São José do Desterro ultrapassa o referencial exclusivamente religioso. “A Igreja é o grande símbolo do bairro”, afirma Vadinho. O templo, que vivenciou tantas reformas ao longo dos séculos, demonstra os esforços coletivos no intuito de manter o “patrimônio vivo”. Inclusive, a imagem da Igreja de São José do Desterro é tão forte para os moradores que o grupo cultural do bairro Boi Lendas e Magias tem como logo sua iconografia, símbolo de resistência da comunidade do Desterro.
Em relação à celebração realizada em homenagem a São José, Vadinho esclarece que no dia 19 de março é realizada uma missa votiva ou um tríduo - três dias consecutivos da reza de terços. De tal maneira, apesar do nome, esta Igreja é identificada como sendo “essencialmente mariana", não possuindo, assim, um festejo específico ao santo padroeiro da Igreja na comunidade do Desterro, como acontece no mês Mariano, em maio, em devoção a Nossa Senhora de Fátima, e na segunda metade do mês de agosto, quanto ao Festejo de Nossa Senhora do Desterro (fichas deste Dossiê). A imagem sacra de São José está localizada no altar lateral à esquerda no interior da Igreja. Após restauro da imagem, em 2023, a Fundação Municipal de Patrimônio Histórico declarou que esta imagem foi produzida em Portugal, no século XIX.
A devoção ao santo padroeiro da Igreja é notável e percebida durante a realização das missas e nas falas afetivas dos devotos.