Joãozinho Ribeiro
Onde está?
Desterro, São Luís (MA)
O que é?
João Batista Ribeiro Filho, conhecido por Joãozinho Ribeiro, é uma referência no cenário cultural maranhense (Figura 43) Viveu no Desterro entre os 7 e 27 anos, contudo, o multiartista entende que o bairro continua habitando nele e ele no bairro. Compositor, militante, produtor cultural, poeta, bacharel em Direito pela Universidade Federal do Maranhão, ex-secretário estadual e municipal da Cultura e aposentado como Técnico da Receita Federal, membro da Academia Ludovicense de Letras ocupando a cadeira nº 26, Joãozinho é um multiartista com diversas parcerias e músicas regravadas por expoentes do cancioneiro brasileiro local e nacional. Entre 2009 e 2010 trabalhou no Ministério da Cultura, onde atuou como coordenador executivo da II Conferência Nacional de Cultura.
Nascido no bairro da Coréia, São Luís, no dia 29 de abril de 1955, na Travessa 21 de abril, Joãozinho teve dois irmãos mais velhos, Sebastião e Graça, fruto de uma relação extraconjugal do chefe da fiação com sua mãe ainda solteira. Seu pai, João Batista Ribeiro, era feirante, e sua mãe, Maria Amália Carvalho Reis, trabalhava na fábrica de tecidos Santa Isabel. Joãozinho assim os apresenta: “Naquele tempo éramos uma família / Como tantas outras da cidade / Gente humilde / Do subúrbio / Das cadeiras nas portas / Da subsistência / Arrancada das peças de lona / Tecidas pelas mãos operárias / De Dona Mariquinha, minha mãe, / Nos teares da Santa Isabel” (Ribeiro Filho, 2006, p.39 - 40). “Seu João, meu pai, / Vendia na feira da Praia Grande / E trocava o apuro dos cocos e camarões / Pelas doenças venéreas / Das meretrizes da ‘28’ ” (Ribeiro Filho, 2006, p.41).
Ainda criança, a família de Joãozinho se mudou para o bairro Cavaco - denominado atualmente de bairro de Fátima e, na sequência, para o bairro Diamante, para a Rua 18 de novembro, no Canto da Fabril, onde havia uma grande concentração de fábricas. Por fim, Joãozinho foi morar no Desterro, in 1962, com 7 anos de idade.
Em entrevista, Joãozinho comenta que quando criança não entendia o porquê de sua mãe ter herdado um casarão tão grande no Desterro, na condição de usufrutuária. Anos mais tarde, ficou sabendo que muitos portugueses proprietários dos casarões foram embora do Brasil e doaram-nos aos escravizados, como foi o caso de sua família, em que os avós maternos Andrelina Troiano Carvalho dos Reis, casada com o avô Benedito Mariano dos Reis receberam por doação o casarão além de móveis e outros objetos do interior das propriedades, como um piano, imagens de santos e quadros.
Antes ainda, Joãozinho se recorda de seus bisavós que viveram no Desterro: entre a Travessa da Lapa e a Rua Afonso Pena, no número 394, “ali, meu bisavô João Damasceno (ex-escravizado) e minha bisavó Maria Cândida (cearense retirante da grande seca de 1877) iniciaram uma das maiores famílias ludovicenses” (Ribeiro Filho, 2021, s/p).
O artista maranhense guarda com carinho um registro fotográfico de 1905 com seu bisavô e bisavó e seus 9 filhos, incluindo sua avó, mãe de sua mãe. Seu bisavô foi uma pessoa escravizada e sua bisavó migrante forçada pelas secas do Ceará. Joãozinho reitera que sua história de vida não pertence apenas a si mesmo, mas está entrelaçada com a história de seus ancestrais vindos de áreas remotas, inclusive, os quais acredita que, provavelmente, foram descarregados ali na Praça das Mercês (ficha deste dossiê) como peça-mercadoria dos ciclos econômicos sustentados pela escravização africana.
Quando sua mãe se casou e, finalmente, pôde habitar o casarão doado aos seus familiares - preceito que fizera com a que a mãe não pudesse anteriormente morar em tal edifício - Joãozinho recorda que realizaram uma grande limpeza e tiraram os morcegos que ocupavam o casarão abandonado. A mãe de Joãozinho não havia ido morar naquela casa antes pois era solteira e, seguindo os costumes e tradições morais da época, o neto mais velho de seu bisavô, seu tio-avô Mundico Carvalho, exigia que morassem no casarão apenas casais legalmente constituídos. Por isso, a família de Joãozinho viveu de aluguel em outros bairros até 1962.
No casarão, moravam muitos núcleos familiares, como tios, primos e outras crianças criadas pela família. Era uma moradia polinuclear e intergeracional. A casa, muito grande, era composta por vários cômodos, como duas salas amplas, uma série de quartos, que Joãozinho não consegue precisar quantos, um observatório (mirante), onde ele morava com os pais, um poço desativado, um porão, uma grande varanda e quintal, tendo apenas um único banheiro compartilhado por todas as famílias.
O casarão comportava uma rica cultura, inclusive com tradições religiosas africanas e católicas. Joãozinho Ribeiro guarda na memória as brincadeiras, aprendizados e vivências desse período. Seus tios, menciona ele, gostavam de fazer peças de teatro e encenavam os autos em datas comemorativas, como as destinadas à celebração de santos católicos e nascimento e Paixão de Cristo. Tudo isso faz parte da memória oral, repassada pelos parentes mais antigos, incluindo sua mãe Amália.
Naquela época, era comum falecer muita gente com doenças que hoje são mais controladas, como diabetes, hipertensão e câncer. Joãozinho pontua que morriam pessoas mais velhas e crianças, pois os recursos de saúde eram escassos na década de 1970 a 1990. O culto da morte era diferenciado e isto ficou marcado na memória de Joãozinho: tudo tinha um ritual específico a depender da “patente do defunto”, diz ele. Em forma de luto, as grandes janelas do casarão eram cerradas. Se fosse um patriarca da família, por exemplo, as janelas ficariam fechadas por até 6 meses.
No casarão do Desterro também ocorreram festas que até hoje povoam as lembranças de Joãozinho, como, por exemplo, o maior presépio que ele conhecia, cheio de sincretismos, com peças de santos de madeira dos brancos portugueses, junto com elementos de matriz africana que já pertenciam à sua família. Joãozinho recorda que seus tios venderam as peças de madeira dos portugueses para comprar cachaça - “quem conseguiu comprar teve um tesouro em mãos”, considera Joãozinho.
Aos 9 anos de idade, Joãozinho Ribeiro teve câncer, mais precisamente um sarcoma de mandíbula, e passou por uma grande ruptura em sua vida. Nessa época, estudava o primário no colégio Curso de Aplicação, porém, devido ao tratamento da doença, teve que interromper os estudos. Passou dois anos com o tumor. A mãe, com pouca instrução escolar, fez de tudo para descobrir o que o filho tinha: frequentou médicos especializados, espíritas e curandeiros. Conseguiu uma passagem para o Rio de Janeiro para tratá-lo, pois na década de 1960 só lá havia recursos médicos compatíveis. O tempo que passou no Rio de Janeiro, Joãozinho Ribeiro Filho registra em seu livro “Paisagens feitas de tempo”, escrito em 1985 e publicado em 2006.
“Um mundo de muitas imagens / Como aquela da santinha, / Sobre o espelho do leito / Que testemunhou, / Todo martírio daquela hemorragia / No 17° dia de minha convalescença Imagem que até hoje me anuncia / A divisão dos mundos / Dos mortos e dos vivos / Viva na galeria da memória / Responsável por grande parte / Desta paisagem humana que descrevo agora / A alta me trouxe a volta / Driblando a sorte e a sina / A volta num vôo da FAB /A geografia dos espaços / Recompondo / O outro lado das coisas / (menos o esquerdo da face)” (Ribeiro Filho, 2006, p.59-60).
Quando voltou para o Maranhão, em 1965, se sentia um menino estranho, sem uma parte da face esquerda do rosto operada para a retirada do tumor. Naquela altura, encontrou um “outro Desterro”, e passou a viver a juventude com intensidade. Diz o multiartista que foi assim que passou a tener mais contato com o patrimônio humano do Desterro, tão marcante no cotidiano de seus habitantes, como também era a desigualdade social, com constantes casos de assassinatos, roubos, uso de droga, alcoolismo e violências outras que percorriam as ruas e os hábitos do CHSL.
Acerca desse período, Joãozinho relembra que viu cenas terríveis nas ruas, como assassinatos. Para as crianças, chamavam uma parte da Zona do Baixo Meretrício (ficha desse dossiê) de rua proibida [Rua da Palma]. Contudo, ainda assim, as ruas eram espaços de vivência e cordialidade entre moradores e alguns frequentadores assíduos da ZBM e, assim, Joãozinho viveu a boemia, os prazeres e os percalços de se morar no Desterro.
Na década de 1970, Joãozinho começou o curso de engenharia mecânica na Federação das Escolas Superiores, anterior à UEMA, que abandonou quando começou a se dedicar ao movimento estudantil de esquerdas clandestinas, desarticuladas depois pela ditadura civil-militar. Ele se lembra do episódio de uma das maiores revoltas populares, a greve da passagem, em setembro de 1979. Depois do quebra-quebra que teve na cidade, as forças de segurança estavam todas atrás das lideranças. Todos os órgãos públicos, nessa época, eram localizados na Rua da Palma, inclusive o temido DOPS. Ele não saiu do bairro, e permaneceu em sua casa, correndo o risco de ser apreendido pela Polícia Militar, sediada no Convento das Mercês.
Nesse período, também se dedicou às artes: músico, compositor, escritor e poeta, em 1979 conquistou o segundo lugar no festival universitário, com a música “Liberdade ainda que tardia” - ano da anistia e da reconstrução da UNE em Salvador, em que ele estava presente como delegado representante do Maranhão.
Mirando o Desterro poeticamente, Joãozinho percebeu que muitos artistas e jornalistas de fora do bairro escreviam sobre o Desterro, mas os próprios moradores não se aventuravam em contar as suas histórias. Disso, enquanto conhecedor dos hábitos e habitantes do bairro, Joãozinho cumpriu o papel de fazedor de cultura e, sobretudo, de incentivador cultural, entoando o resgate de memórias e sensibilidades.
Mergulhado nas noites profundas do Desterro, aos 20 e poucos anos teve tuberculose. Ele conta: “dessa fase da minha vida toda, da boemia brava, da poesia, do mergulho nas noites sem volta, até pegar uma tuberculose, o mal dos poetas, com vinte e poucos anos. Conhecer as músicas, as prostitutas, malandros, moradores de rua e tudo aquilo que diziam ‘essa gente não é boa’, eu rompi esse casco de cabeça. Paguei um preço por isso, mas não me arrependo não. Eu conto muito disso no livro “Paisagens do Tempo”, em um formato poético, mas bem real, o que significava o Desterro”.
Em 1981 deixa o Desterro e vai morar no Bairro Vinhais, mas sem abandonar o bairro, diz ele. Parte da sua família ainda mora no saudoso Casarão da rua Afonso Pena, nº 394. O mirante de sua antiga casa, que serviu de inspiração de observatório humano e poético da paisagem do Desterro, foi interditado, sendo que uma parte desabou.
No início dos anos 2000, Joãozinho Ribeiro decide reunir diversos artistas da cidade, muitos amigos do Desterro que conviveram durante sua juventude e criar o evento denominado “Serenata dos Amores” (ficha deste dossiê). Este, é, pois, uma das suas grandes marcas para com a vida cultural do bairro. Entusiasta cultural, em entrevista para a composição do livro “Produção cultural no Brasil” (Taddei e Milani, 2010), Joãozinho conta em detalhes sua história de engajamento cultural e político ao longo das últimas décadas. Em outra entrevista, ele reitera que a capital maranhense ainda é “um território de muitas desigualdades” no setor cultural (Agência Tambor, 2022).
Sabedor da realidade vivida do Desterro - revelando lembranças de sua infância e juventude, dos jogos e barganhas políticas, quando atuou como agente cultural, assumindo a secretaria municipal de cultura e, sobretudo, do poder de transformação e impacto social da cultura na vida das pessoas - Joãozinho é lembrado com respeito como um parceiro que muito fez/faz pelo bairro e que segue firme por mais oportunidades para cultivar e promover a cultura, como fator de desenvolvimento humano.
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