Largo do Desterro
Onde está?
Circundado pela Rua da Palma, entre os Becos do Desterro e da Caela. Do Largo é possível avistar tanto o mar quanto às margens do Rio Bacanga.
O que é?
O Largo do Desterro é composto pelo pátio à frente da Igreja São José do Desterro, rodeado por casas, entre a Rua da Palma e ramificações para os Becos do Precipício, do Desterro e da Caela (Figura 24). A área plana do Largo dá acesso às escadarias para a Praça Flor do Samba, situada num nível mais baixo.Até a década de 1970, após o aterramento do Rio Bacanga quando foram construídas outras praças no bairro, o Largo era o único espaço público amplo de livre acesso que comportava um grande número de pessoas reunidas no Desterro.
Apesar de localizar-se no extremo oposto da cidade fundada pelos franceses, o Largo aparece sinalizado na primeira planta da cidade, datada de 1642, como uma extensão do setor urbano com saída para o mar. Ao longo dos anos, o Largo do Desterro passou por diversas reformas, como a terraplanagem e inserção de grades de ferro, delimitando a praça em direção ao Beco da Caela, em 1903 (Vieira Filho, 1971; Lima, 2007).
Anterior a década de 1930, quando da criação da Escola de Samba Flor do Samba, o Largo do Desterro era utilizado como ponto d e encontro para os foliões do carnaval. Segundo Guiomar, todas as manifestações carnavalescas com diversos cordões e blocos, seja do Desterro ou de outros bairros que vinham desfilar, iniciavam suas brincadeiras na porta da Igreja do Desterro.
Vadinho ( Gilsivaldo Gomes Fonseca) rememora a realização de arraiais no período de São João até os anos 2000: “tinha arraial bem embaixo, onde hoje é a praça em frente à sede da Flor do Samba, lá era um terreno de chão batido, era um arraial que fazia as coisas bem tradicional, fazia aquelas decorações com palha, típico de interior, aquela coisa bem rústica, raiz e tinha outro arraial aqui no Largo, embora fossem bem próximos eram extremamente concorridos''.
Jânia Lindoso recorda de sua juventude quando, pelos anos de 2000, “na praça da Igreja tinha feira de livro infanto-juvenil, tudo era voltado para o educativo, tinha brincadeiras a manhã toda, entrega de presentes, lápis, cadernos, lanches […], nós ganhávamos muitos livros” - atividade que integrava as Semanas Culturais do Desterro, organizado por Joãozinho Ribeiro, entre outros.Dalmir Campos lembra quando o Largo do Desterro “tinha gincanas e peças de teatro a céu aberto, onde a comunidade se juntava e participava das brincadeiras'', inclusive com premiação de troféus, organizados por ele junto à Secretaria municipal dos esportes e outros patrocinadores locais.
Maria da Graça Torres rememora que até os anos de 2020, ao centro do Largo “tinha um pé de Figueira, uma preguiça que morava nesse pé, ela era como um xodó do bairro, o pessoal tirava foto, aí tiraram a árvore''. Nesse período, continua Vó Graça “na praça fazia panos de barcos, colocavam aqueles panos grossos para fazer, aí nós ficávamos brincando nos panos''.Outrossim, no Largo do Desterro também ocorria uma festa de natal coletiva em que todas as pessoas que moravam no entorno preparavam a ceia em suas casas e colocavam as mesas para o lado de fora, compartilhando uma grande ceia comunitária a céu aberto. Não importava se a família tinha muito ou poucas condições financeiras, todos partilhavam dos alimentos. O padre da época, que também era morador da comunidade, era o principal incentivador desta confraternização. À meia noite do dia 24 para o dia 25 de dezembro, o padre celebrava a missa do galo. Porém, quando este padre morreu, todo esse ritual acabou.
Diante de sua referência histórica e afetiva de convivência para a comunidade, o Largo do Desterro foi o lugar escolhido por diversas vezes para abrigar muitas das atividades organizadas por instituições governamentais, como ‘'Desterro Feliz', uma ação comunitária do programa ‘'Maranhão Feliz'', promovido pela Secretaria de Esporte e de Lazer, em 2011, incluindo atividades esportivas e de lazer no bairro (CBTM, 2011; Chagas, 2012).
O Largo comporta referências religiosas, de lazer, cultural e turística. Já foi cenário de diversas manifestações culturais e religiosas, como encontro de foliões, arraiais juninos, apresentações de Tambor de Crioula, feiras de livros e eventos esportivos, cei a de natal coletiva, procissões, entre outros, destacam o Largo como um lugar de pertencimento, onde as tradições culturais e religiosas são preservadas e transmitidas de geração em geração (Ericeira, 2006). Sobre o Largo, os encontros para jogar futebol, chuço (acertar o alvo) e peteca estão presentes na memória dos moradores (Azevedo, 2024). À noite, os moradores reúnem-se para jogar dominó, brincar e conversar. Às tardes, não raramente, turistas visitam o Largo para registrar a famosa primeira ermida da capital.
Atualmente, o Largo já não é mais tão utilizado como fora no passado, concluíram os mais idosos. Em todo caso, o Largo do Desterro representa não apenas a manutenção de um patrimônio arquitetônico histórico associada à Igreja Católica como fundação e organization espacial do Centro Histórico de São Luís, mas também o fortalecimento das dinâmicas sociais e culturais que sustentam a identidade do bairro entre as diferentes pessoas que conferem vida diariamente ao Desterro.
Voltar para o topo