O que é?
Maria da Graça Ferreira Torres (Figura 44), conhecida por Vó Graça, tem 77 anos de idade e muita fé e disposição para fazer o bem. É considerada uma pessoa-patrimônio tanto por viver no Desterro e participando ativamente de várias manifestações culturais há muitas décadas, uma “memória viva” de uma longa história, detentora de saberes e práticas religiosas católicas e espirituais afro-indígenas que a tornam referência como conselheira, parteira, rezadeira e benzedeira.
Vó Graça teve 10 filhos (3 já falecidos), tem 20 netos e 13 bisnetos, criados com muito esforço por ela, Deus e as entidades. Destes, alguns moram no Desterro. Vó Graça foi vendedora ambulante por muitos anos, empregada doméstica, proprietária de bar, vendedora de comida em casa e, atualmente, trabalha ajudando no Boteco do Maneco, de seus familiares. Mesmo idosa, Maria da Graça é uma senhora muito disposta: “Eu gosto de estar em movimento, de cozinhar, fazer isso e aquilo [...], eu gosto porque me faz bem, na minha idade eu tenho que me movimentar. Antes o que eu fazia pra me movimentar era dançar o Tambor de Crioula, mas, desde que eu tive trombose, o médico me proibiu porque depois que eu dançava a perna fica inchada. Então, hoje, eu instruo as meninas como dança, mas não danço mais. Isso fica para minha nora”, comenta ela em entrevista para o IESTI (2024).
Ademais, grande parte dos habitantes do Desterro quando passam por Maria da Graça pedem sua benção, beijando-lhe a mão. E ela responde beijando de volta a mão e abençoando-os com voz tranquila e feição sorridente. Este sinal de afeto demonstra como esta senhora é querida e respeitada na comunidade. Sobre isso, Vó Graça comenta que até mesmo usuários de drogas que habitam o Desterro há muito tempo lhe pedem a bênção, e ela não discrimina nenhum deles, cumprimentando-os também, e sempre que possível dando-lhes conselhos para a vida.
Nascida e criada no Desterro com mais outros três irmãos, Vó Graça é fruto da união de dois migrantes que se conheceram no bairro há mais de oito décadas: Emídio Almeida Ferreira, vindo com a família de uma comunidade quilombola do município de Cururupu/MA, e Laura Silva Ferreira, nascida no Ceará, mas vinda com a mãe indígena de origem paraense.
A avó materna de Maria da Graça - a senhora Neuza Sampaio da Silva, indígena da Aldeia Engenho, no Pará - conhecia o poder espiritual da floresta, daí os ensinamentos quanto ao benzimento virem dela. Vó Graça desde os 12 anos foi criada pela avó materna e por sua madrinha (tia), após o falecimento do seu pai e, pouco tempo depois, da sua mãe. Com a avó Neuza, Vó Graça aprendeu diversos tipos de remédios caseiros, como garrafadas e banhos, que sempre surtiam efeito, como comentam as muitas pessoas que Vó Graça já tratou. Aprendeu também a rezar as ervas, como, por exemplo, o pião roxo e a arruda (para mal olhado), vassourinha (para espantar o mal, espada de São Jorge (para cortar demandas espirituais), alecrim (para revigorar e abrir caminhos) e cidreira (para acalmar).
A primeira experiência de Vó Graça como parteira foi com sua neta Fernanda, de 24 anos. Até hoje sua neta fala para ela; “ô meu amor, eu te agradeço tanto por você ter me posto no mundo”, recorda Vó Graça sorridente. Depois que outras pessoas ficaram sabendo desse parto, começaram a chamar Vó Graça para ser parteira em muitos outros. Esse é um saber que não foi repassado para outras pessoas, já que “hoje os tempos são outros”, comenta a anciã.
Mulher de oração, Vó Graça conta que segue um ritual diário de oração, mantendo conexão elevada com Deus, os santos e seus guias. Reza em casa, na Igreja, no congá, na Fábrica de Artes e em espaços em que é convidada no Desterro e em outros bairros. “Quem cura é Deus, eu sou um instrumento”, ela comenta sobre as práticas de benzimento. E rebate ao ser questionada sobre ser fiel da Igreja e uma mulher de axé: “Eu não sou de nenhuma religião, eu sou de Deus. Porque nenhuma religião salva, o que salva é a nossa fé em Deus” (IESTI, 2024).
Fiel da Igreja de São José do Desterro, ela relembra que aos 13 anos aprendeu a rezar em latim, observando o Padre Arthur Gonçalves na Igreja. Desde então vem rezando a ladainha em latim anotada em seu caderninho nos eventos da comunidade do Desterro, como na Queimação de palhinhas (que se inicia no dia 6 e se prolonga por todo o mês de janeiro em várias residências que a convidam), no Dia dos Pretos Velhos (13 de maio) e no dia de São Benedito (5 de outubro), além de em outras celebrações religiosas, sobretudo na Fábrica de Artes.
O sonho de se tornar professora que Vó Graça tinha quando criança se realiza na Fábrica de Artes (IESTI, 2024), espaço onde ela é a matriarca, sempre acompanhando as diversas atividades e ensinando a todos com seu exemplo de vida e determinação. Em breve, ela pretende ser oficineira de comidas típicas e artesanato com materiais recicláveis na Fábrica, o que mostra que a Vó pretende continuar trabalhando em prol da comunidade.
Sobre os saberes religiosos relacionados à ladainha em latim (catolicismo) e aos tratamentos curativos com ervas (afro-indígenas), Vó Graça comenta que antigamente havia outras rezadeiras e benzedeiras no Desterro, mas que foram envelhecendo, e faleceram, levando com elas esses saberes. Dona Sibá e Dona Guilhermina, por exemplo, eram mulheres mais velhas residentes no Desterro que Vó Graça conheceu e que rezavam para diversos males.
Por isso tudo se compreende que a Fábrica de Artes (ficha deste dossiê) que é um espaço gerido pela matriarca, por seu filho Mestre Prego, sua nora Bruna e outros diretores da Associação Cultural Os Caras de Onça, ser um lugar de manutenção de saberes culturais também espiritualistas e religiosos. Das vezes que pudemos presenciar Vó Graça cantando a ladainha em latim e benzendo pessoas na Fábrica de Artes, percebemos como outras pessoas estão aprendendo com a matriarca.
Vó Graça já participou de outras movimentações no bairro, como oficinas de artesanato na Casa do Bairro e reuniões de cunho político-comunitário na União dos Moradores. Há anos, desenvolve um lindo trabalho no Sindicato dos Arrumadores (que frequenta desde criança com seu pai, onde atualmente é responsável por decorar o andor e ajudar a organizar as festividades para a patrona, Nossa Senhora de Lourdes - tradição cultural-religiosa do Sindicato dos Arrumadores realizada com missa e ladainha na primeira semana de agosto na sede do Sindicato, seguida da procissão até o município vizinho de São José de Ribamar, realizada desde antes de seu pai frequentar o Sindicato). Ademais, tem forte ligação com a Escola Flor do Samba (onde desfila em alas desde seus 18 anos de idade, já fazendo parte da velha-guarda) e com os Caras de Onças e a Fábrica de Artes (demonstrando grande apoio ao seu filho, José Lindozo).
Desde 2015, Vó Graça zela por um congá de Tambor de Mina na Comunidade do Arraial: “sempre vou pra lá, passo um tempo organizando as coisas e retorno para o Desterro [...]. Lá tem as festividades maiores, como, em janeiro, para São Sebastião, em junho, para a família de Légua Bogi e, em dezembro, para Santa Luzia, a quem sou devota. Também tem roda de cura quando alguém está precisando. Alguns aqui do Desterro frequentam nosso congá”. Ainda no bairro, Maria das Graças já teve espaços dentro de sua residência que eram dedicados aos santos e guias e que as pessoas costumavam frequentar, como quando morou na Rua da Palma, de 2005 a 2012.
Até hoje, pessoas de diferentes lugares ficam sabendo das práticas espiritualistas de Maria da Graça e procuram a sua residência, situada à frente da Igreja do Desterro.“Isso é meu dom, meu pai também benzia: era boieiro (do Bumba Meu boi), coreiro (do Tambor de Crioula) e sambista (no carnaval) - tá no sangue!”, comenta, grata por ter esses saberes ancestrais advindos tanto do lado paterno (pai), quanto materno (avó), e por ter conseguido compartilhar com seus filhos e netos e ter no legado familiar uma referência cultural reconhecida no Desterro.