O que é?
Maria de Jesus Almeida Costa, conhecida como Dijé, é referência em várias lutas sociais no Centro Histórico de São Luís (São Luís, 2005) (Figura 45). Importante liderança quanto aos direitos de moradia, saúde, proteção dos direitos humanos no que tange aos diversos tipos de violência, como racismo e homofobia, Dijé é mãe de três filhas e avó de uma neta. Denomina-se como puta-mulher-ativista, há muitas décadas milita pelos direitos das mulheres, em especial das prostitutas e de mulheres negras que sofrem duplamente a opressão e a desigualdade: “eu passei por todos os tipos de violência e depois fui para os movimentos organizados. Hoje eu posso chegar para uma pessoa e falar de DST, de violência, da vida, das políticas públicas, da experiência que eu tive, sem um pingo de mágoa”, comenta Dijé, que desde quando era uma criança negra passou por diversas situações. Além de referência no Desterro, por sua vida e militância, Maria de Jesus é co-fundadora do Bumba Meu Boi Lendas e Magias e faz parte da diretoria da Escola Flor do Samba no Desterro.
Nascida no município de São Bento, na microrregião da baixada maranhense, Maria de Jesus perdeu a mãe aos seis anos e aos 12 anos saiu de casa. Comenta que não teve infância: “os meus pais me deram e a pessoa que era para tomar conta de mim me abusou. Mas isso não me afeta hoje e eu também não culpo meus pais. Isso me levou a sofrer discriminação da minha própria família. Era uma época muito machista, de que o homem podia tudo. E a errada sempre era a vítima. Eu achava que a minha família era culpada. Mas não tem culpados. Teve a situação” (Ribeiro e Campos, 2022, p.366). Disso, Dijé enfatiza que muitas vezes as mulheres que se tornavam profissionais do sexo já saem violentadas de casa, passando por processos de abuso, julgamento, discriminação e violência no seio familiar.
Migrante em busca de melhores condições de vida, “eu vim para São Luís com 12 anos com uma pessoa que me dizia que eu ia morar com ele. Eu era uma criança, mas ele me deixou no meio do caminho, antes de chegar a São Luís”, nos disse Dijé. Pegando carona nas estradas, ela conseguiu chegar sozinha até a casa de uma tia, que morava no bairro Vila Palmeira, na capital, São Luís, mas não se adaptou porque tinha que trabalhar em casa e cuidar dos dois filhos da tia. Maria de Jesus conheceu uma colega também com 14 anos e resolveram ficar juntas para procurar emprego. “Encontramos um policial que disse que tinha um lugar para a gente ficar. E esse lugar era a Zona do Meretrício”. Contudo, quando vieram para o Desterro a dona do bordel não as aceitou porque eram menores de idade. Então ficaram na rua, pedindo comida e dinheiro. Com um tempo, as meninas alugaram um quarto e passaram a frequentar bares onde acontecia a prática de prostituição. “Nessa época tinha os chefes de captura e nos levou presas, eu e minha colega, porque éramos muitos jovens para trabalhar. A dona do bar depois foi me buscar. Naquele tempo era tudo muito errado, mas era normal [...] Era normal vir menores do interior para trabalhar”, afirma Dijé comentando que, apesar de tudo, as proprietárias dos bares e boates eram as únicas em quem essas meninas e mulheres podiam contar. “ Eu peguei DST com 14 anos, fiquei doente, e doente você não podia ficar em casa pois estava impossibilitada de trabalhar, de ganhar dinheiro, de pagar seu quarto. O dono mandava ir embora. Eu dormi muito na sarjeta e passei todo tipo de situação”, conclui a ativista.
Quando Dijé morava no cabaré voltou a estudar, concluiu o ensino médio e fez vários cursos. Foi acolhida por uma dona de bordel no Bairro do Desterro, na Rua 28 de julho, no qual viveu por mais de 30 anos. Teve outros trabalhos simultâneos à prostituição, como: empregada doméstica, garçonete, manicure, cabelereira, vendedora ambulante, cozinheira, operária e gerente de um cabaré. Ao todo, morou em três casas de prostituição, e comenta tanto das dificuldades e conflitos internos, quanto da segurança e amizade que a Rua 28 representou para ela e outras mulheres.
Maria de Jesus comenta que sempre “batia de frente” com o que considerava injusto na vida da prostituição: “Eu brigava porque a mulher que engravidava tinha que ir embora. Às vezes era uma pessoa que a gente tinha laço afetivo. Engravidava e tinha que ir embora, não tinha camisinha para proteção, não tinha nada”. Dijé comenta das muitas colegas de profissão que perdeu na prática do aborto ilegal e de mulheres que ficaram adoecidas e com sequelas devido à realização de abortos consecutivos.
Casos de violência e racismo vividos na prostituição também são contados por Dijé, como o fato de as mulheres negras serem preteridas e das agressões físicas entre homem e mulher na zona de prostituição. Já muito combativa, Maria de Jesus iniciou a sua militância política dentro do movimento negro chamado Grupo de União e Consciência Negra (GRUCON). Ela disse: “Minha primeira viagem foi para Goiânia, foi pelo movimento negro, pelo GRUCON. Era a única maranhense a fazer parte da Rede Brasileira de Prostitutas” (fundada em 1998, no Rio de Janeiro). Já em 2003 começou na Associação das Profissionais do Sexo no Maranhão (APROSMA), atualmente desativada, atuando hoje no Coletivo por Elas Empoderadas (fichas desse dossiê).
O movimento brasileiro de prostitutas surge na década de 1980, lutando contra a violência policial e afirmando a prostituição como trabalho. Desde o seu surgimento, o movimento tem reivindicado o reconhecimento da prostituição como uma profissão e direitos trabalhistas, mas tem esbarrado na redução das políticas públicas para o segmento, voltadas somente à prevenção das IST’s, HIV/AIDS e hepatites virais, que reflete a forma como o Estado tem os enxergado, como grupo de risco e vítimas a serem “resgatadas” da zona de prostituição. Atualmente, o movimento brasileiro de prostitutas está dividido em três grupos: a Rede Brasileira de Prostitutas (RBP), a Articulação Nacional de Profissionais do Sexo (ANPROSEX) e a Central Única de Trabalhadoras e Trabalhadores Sexuais (CUTS). Jesus conheceu a RBP na década de 1990, através de sua participação em projetos e movimentos de luta contra o HIV/AIDS. Durante sua militância política no movimento organizado de prostitutas no Maranhão, do qual é uma das fundadoras, esteve em eventos nacionais e internacionais, e vivenciou o surgimento das outras redes supracitadas que se desmembraram da RBP nos anos 2000. Apesar de ter vivenciado o surgimento de outras redes, Maria de Jesus continua filiada à RBP e acredita que a luta das três redes é uma só, por isso ela dialoga bem com todos esses movimentos (Ribeiro, 2023).
Em julho de 2025, Dijé e o Coletivo Por Elas Empoderados ajudaram a organizar o “I Encontro Nacional da CUTS 2025: 10 anos de luta e resistência”, sediado no Convento das Mercês, trazendo para o bairro do Desterro a discussão dessa pauta. Com os objetivos de: reunir as associações, grupos e coletivos para articular politicamente ações em conjunto; promover debates sobre violência de gênero, putafobia, exploração sexual, direitos humanos, autonomia das trabalhadoras sexuais e acesso a serviços públicos; criar campanhas contra o racismo e a violência institucional e de gênero; lutar por políticas públicas e inclusão social; debater sobre as políticas de prevenção combinada, fortalecendo a resposta comunitária para o enfrentamento ao HIV, AIDS, tuberculose, hepatites virais, HTLV e outras IST’s; discutir sobre direitos humanos e suas violações, como tráfico de pessoas e imigração para fins de trabalho sexual; dar visibilidade a luta por uma legislação mais inclusiva e o reconhecimento dos direitos trabalhistas das pessoas que exercem o trabalho sexual; e ampliar o diálogo do movimento nacional com o governo federal e seus ministérios.
Dijé afirma: “já fui militante do bairro, hoje eu não sou mais, sou militante pra outras coisas. Eu já fui militante para água, militante de tentar fazer a política social do bairro. Por questões pessoais. Não foi falta de amor. Na verdade, eu milito com pessoas que se evadiram daqui e foram para outros cantos. Tem que ser uma política puxando a outra. A gente tem uma política de habitação, mas precisamos ter uma política de educação, uma política de saúde, uma política de geração de renda. Tudo tem sua história. Eu não posso ser só ativista de puta, eu tenho que ser ativista da minha comunidade também, das pessoas. Eu tenho que ser ativista dos idosos também, porque eu já estou idosa” (Ribeiro e Costa, 2022, p. 364).
Nas palavras de Jesus: “[...] muita gente acha que mulher prostituta é vítima, nós não somos vítimas” (Santos, 2023). “Na minha história de vida, eu não tenho nada financeiramente falando construído pelo movimento, por ser ativista. Eu não tenho nada e tenho muito. Eu quero sempre ser a pessoa que tem o que comer, mas sempre quero poder colaborar com as companheiras” (Ribeiro e Costa, 2022, p. 368).
Dijé sempre está participando de alguma ação social, movimento ou projeto que contribui com a melhoria de vidas das pessoas, como a distribuição de comida, cestas básicas, remédios, preservativos, cartilhas educativas. Sua militância tem foco no Desterro, mas extrapola em muito os limites do bairro e das pautas de direito das profissionais do sexo. Mulher negra, moradora do Desterro, sempre se faz presente nos ensaios e festividades culturais do bairro, disposta e engajada em gerar “um fluxo de ações que beneficiam tanto a comunidade do Centro Histórico quanto outras pessoas que circulam por essa área da cidade, fortalecendo a articulação e a mobilização social em uma escala mais ampla” (Rocha, 2025, p.127).
“E aí, Dijé, como tá?” “Tá bom, né!? Vamos falar assim porque não adianta reclamar da vida, é preciso trabalhar para melhorar” - temos muito forte esta mensagem quando dos nossos contatos com a Dijé, grande amiga de Dona Sandra, de Dona Socorro do Bar Meu Bem e de tantas outras pessoas que precisam de ajuda ou que estão dispostas a ajudar os demais sem preconceitos.