Devoção à Nossa Senhora de Fátima
Onde está?
Ocorre pelas ruas do bairro Desterro, tendo como centralidade física e simbólica a Igreja São José do Desterro.
O que é?
O festejo em devoção à Nossa Senhora de Fátima é realizado há mais de 30 anos na Igreja de São José do Desterro, sempre no mês de maio (Figura 31). Esta celebração é um dos poucos momentos em que a Igreja fica aberta todas as noites ininterruptamente e os devotos são os responsáveis por “tirar” (rezar) o terço, oferecer algum lanche aos demais fiéis e levar a Santa para sua casa naquela noite - por isso, essas pessoas são chamadas de noitantes.
A programação festiva se inicia com a Missa de Anunciação, no primeiro dia de maio e se encerra com uma procissão que cumpre um itinerário entre o Convento das Mercês e a Igreja do Desterro, no último dia de maio. Nesse ínterim, os noitantes se revezam no movimento de peregrinação da imagem de Nossa Senhora de Fátima por entre as casas de moradores-devotos do bairro - prática instigadora que fortalece a participação e vínculos de pertencimento, memory e identidade religiosa na comunidade de fiéis.
No curso de tal peregrinação, a imagem de Nossa Senhora é conduzida às casas dos noitantes, permanecendo ali por uma noite e um dia, até seguir para a Igreja novamente para a reza do terço organizado por outro noitante, de onde deve seguir para a casa do próximo noitante.
Devido a grande procura das pessoas interessadas em se tornarem noitantes, atualmente há três imagens de Nossa Senhora de Fátima que se revezam entre as casas, visto que pode acontecer de uma noite ser organizada por mais de um pessoa-noitante.
Se em anos passados a festa não atingia 15 noitantes, no ano de 2023, notadamente, ela chegou ao número de 40 noitantes, o que revela um tipo de “reconquista da festa” por parte da comunidade, segundo Gilsivaldo Gomes Fonseca (Vadinho). Além disso, a festa não conta com incentivos governamentais, ficando a cargo dos devotos angariar receitas ao longo do ano para a sua realização. As estratégias são variadas, incluindo a venda de rifas e de comidas típicas.
Quanto à organização das noites, os interessados passam o nome à Igreja com antecedência. A saber, desde a pandemia Covid-2019, o Mês Mariano vem sendo transmitido em tempo real nas redes sociais da Igreja São José do Desterro, por onde também se divulga fotos das noites de oração.
Sobre o fato de que no Desterro a festa em questão dura o mês de maio inteiro, Vadinho esclareceu: “ela começava no dia 1° de maio e encerra no dia 31 de maio, com a coroação de Nossa Senhora de Fátima. Em algumas comunidades se encerra no dia 13, mas nós celebramos o mês inteiro’’. O dia 13 de maio, cumpre salientar, é uma data extremamente simbólica para os devotos de Nossa Senhora de Fátima, pois há a crença que neste dia Maria teve uma das suas aparições, na cidade de Fátima, em Portugal (Santos, 2006). Não por acaso, no Desterro, a missa do dia 13 é bastante procurada pelos fiéis.
Após o término oficial da festa, no dia 1º de junho, no Largo do Desterro, acontece ainda a tradicional “ladainha’’ - oração realizada em latim por Maria da Graça Torres (Vó Graça). Neste dia também ocorre a chamada “queima das intenções”, com distribuição de rosas, que corresponde a queima simbólica dos pedidos e agradecimentos que durante o ano inteiro foram depositados dentro de um “bauzinho” que, junto com a imagem da Santa, percorre o bairro durante o Mês Mariano.
Acompanhamos a celebração dedicada à Nossa Senhora de Fátima realizada na Fábrica de Artes, no dia 30 de maio de 2025, e podemos perceber como o engajamento coletivo e a organização dos próprios fiéis torna essa celebração significativa, fortalecendo laços de pertencimento, criando memória e formando a identidade cultural-religiosa do lugar. Não é um tipo de celebração que reúne muitas pessoas em um grande evento. Sua distinção está, justamente, em ser um ato contínuo e envolvente na história religiosa do Desterro.
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