O que é?
O saudoso Portinho ocupava uma área de cerca de 300 metros à margem nordeste do Rio Bacanga (Figura 26). Enquanto área de descarga, o Portinho também abrigava uma intensa comercialização. Contudo, diante das precárias condições higiênicas e sanitárias, além da presença de depósitos de lixo a céu aberto e esgotos in natura na área (Brugger, Assad e Bergmann, 2010), o mesmo sofreu um aterramento.
A Barragem do Bacanga (1968 - 1973) foi construída rio acima para dar acesso ao Porto do Itaqui, buscando proteger uma área sujeita à inundação periódica em tempos de grandes marés. Devido a essa intervenção, foi reduzido drasticamente o fluxo da maré e o estuário assoreou, e o acesso hoje só acontece através de barcos de pequeno porte. Em 1974, com a construção do anel viário, lado oeste da Praia Grande, a situação do assoreamento se intensificou, e hoje os pescadores chegam por via rodoviária (Brugger, Assad e Bergmann, 2010).
Presente na memória dos moradores mais antigos do Desterro, o Portinho é um lugar referência enquanto trabalho, transporte e alimentação.
Em tom de homenagem, próximo ao Desterro e ao saudoso Portinho está a Praça do Pescador, também conhecida como Praça do Portinho, que abriga uma estátua de um pescador produzida pelo artista Luigi Dovera, instalada em 1983. A obra homenageia um dos personagens mais importantes para a economia local. Mesmo tendo sido reformada em 2016 e atraindo moradores e turistas, o local precisa de melhorias (limpeza, sinalização e reforma de vias e calçamento).
São Luís, gradativamente, tornou-se uma cidade portuária, conhecida como “cidade insular que faz de cada ludovicense um construtor de portos e pontes” (Lopes, 2008, p.11). Notadamente, no período 1755-1889, com a monocultura do açúcar e do algodão e o transporte de colonos e escravos, a potencialidade hidrográfica do Porto do Rio Bacanga, hoje conhecido como Portinho, foi uma das infraestruturas principais que intermediou os ciclos econômicos na época. Ainda que o bairro da Praia Grande concentrasse as atividades comerciais portuárias, a expansão mercantil, as condições da maré e calado não eram mais adequadas à demanda que se apresentava, tendo o Portinho grande importância.
Entre os séculos XVI e XX, São Luís contou com os portos do Portinho (no Desterro), do Anil, da Praia Grande e da Rampa do Palácio. Contudo, o projeto do Porto do Itaqui acabou por modificar essa dinâmica da capital maranhense, endossando, assim, a sua verve exportadora e industrial. A partir de 1960, o Porto do Itaqui foi construído, sendo inaugurado em 1974 e, desde então, passou por diversas ampliações, o fazendo um grande e importante complexo. Em 2004, o Itaqui foi conectado a terminais de outras cidades maranhenses e tem acesso marítimo, fluvial, rodoviário e ferroviário, transportando, assim, granéis de minerais e vegetais, além de combustíveis (Pereira e Ferreira, 2017).
Paulinho (Paulo Cesar Alves de Carvalho), morador do Bairro do Desterro, azulejista e artista, considera que o aterro na região do Portinho causou a ruptura de um lugar e a transformação abrupta na paisagem: “Quando foi criado o aterro, soterrou uma vegetação e não dava mais para ver o rio, então o Desterro perdeu aquela paisagem da água” Além disso, as relações econômicas e sociais do bairro foram se transformando à medida em que as atividades relacionadas à pesquisa foram sendo extintas.
Joãozinho Ribeiro, que sempre observava a paisagem e cada um de seus elementos, notou que nunca mais viu gaivotas no Desterro/Portinho, ave comum que avistava sempre do mirante do sobrado em que morava. Elas costumavam criar um ninho entre as telhas, muito comum quando o Portinho era tão pulsante e próspero.
“Com o projeto Reviver, na década de 1970, se pensou em uma revalorização do espaço, então se construiu a Barragem e o Anel no Bacanga, com o aterro para a construção da avenida, mas se desfez a paisagem do Desterro, com barcos e gaivotas”, lamenta Paulinho.
A área do Portinho não é considerada como um lugar de afetividade para os antigos moradores do Desterro apenas por suas atividades comerciais, mas principalmente por ser uma área de lazer. Antes do aterro se formava uma praia no local. Miterlandes Amaral lembra que na época que o mar banhava o Desterro era comum o “Banho na maré”.
“Ali era o banho de piscina natural e gratuito. Só precisava se preparar para a chicotada depois, pois a mãe não deixava”, conta Miterlandes. Ele lembra, já que era muito perigoso, pelo motivo de que a maré enchia e esvaziava, e nesse processo, alguém poderia se afogar. Além disso, era área de navegação, em que as crianças poderiam ser atropeladas por embarcações.
Os navios ancoravam em frente ao local onde hoje é o Sindicato dos Pescadores (Esquina da Rua Praia dos Reis com a Avenida Senador Vitorino Freire), que naquela época era chamado de Armazém cinco. Ali havia um grande paredão onde as ondas batiam. E o terceiro motivo, é que sempre eram encontrados tubarões na área. Vó Graça lembra que certa vez, sua mãe saiu de casa, e ela foi com os irmãos banhar na maré. Quando sua mãe voltou, ela apanhou no lugar de todos os irmãos, já que ela era a mais velha, e havia os levado.
Antigamente existia muita embarcação, e cada uma delas colocava uma bandeirinha. As lanchas ficavam atracadas no porto, e quando a maré vazava ficavam atoladas na lama, esperando a maré subir novamente para poderem sair. Algumas embarcações que já não tinham mais utilidade também ficavam ali na área do Portinho, como sucatas, que os moradores chamavam de “lanchas naufragadas”, ou de embarcações que “morreram”.
Cada embarcação tinha um nome, e Miterlandes se lembra dos nomes de algumas embarcações naufragadas, como a Iara e a Maria Celeste, que pegou fogo. As crianças que se banhavam no mar gostavam de subir nessas embarcações abandonadas para brincar.
Por tudo isso, o Portinho, embora não exista mais ali, por essas formas descritas pelos moradores, persiste na memória dos moradores do Desterro, que manifestam saudades do porto e do seu tempo.