O que é?
Quando o rio Bacanga seguia largo em direção à Baía de São Marcos, suas águas banhavam o Desterro formando uma área portuária conhecida como Praia do Desterro ou Praia das Mercês (Viveiros, 1954). Devido ao represamento do Bacanga e, subsequente, aterramento de margem direita do rio para construção da Avenida Vitorino Freire, o Desterro perdeu a função portuária. Ainda assim, as memórias da Praia e da Pocinha são frescas nas memórias dos moradores mais antigos (Figura 25).
Sobre a Praia do Desterro, que cumpria importante função comercial e de lazer, no Jornal O Pacotilha de 4 de setembro de 1883 é possível ler a seguinte nota: “O sr. Januario Marinho que hontem de manhã em companhia de José Balduino de Carvalho matou dous tubarões e uma tintureira na praia do Desterro, voltou ao meio dia à pescaria e arpou um formidável tubarão que mede dezesseis palmos de comprimento”.
Entre a Praia e o Convento das Mercês (construído em 1654) havia a Pocinha - formada por uma nascente de água cristalina que brotava do chão e circundado por areia. Moradores antigos como Ana Portela, Dalmir Campos, Maria da Graça Torres, Maria do Socorro e Sandra Fernandes recordam que o lugar era um espaço de encontro, trabalho e lazer: era comum a falta de água no bairro, então as pessoas buscavam água na pocinha; as muitas lavadeiras residentes no Desterro utilizavam da Pocinha para lavar roupa e, assim, lucrar com as demandas provindas de pessoas abastadas de outros bairros; as crianças sempre se banhavam e brincavam ali próximo.
Da Praia do Desterro, ainda que as mães proibissem as crianças de nadar no mar devido aos perigos da correnteza e, especialmente, de tubarões, muitas das crianças desobedeciam e, após se banharem no mar, recorriam a Pocinha para tirar a água salgada do corpo antes de voltarem para casa e, assim, não ser repreendidos pelos seus pais. As mães criavam fantasiosas histórias sobre a Pocinha para assustá-los.
A mãe do morador Miterlandes, por exemplo, dizia que havia um tipo de rã ou de enguia que morava na Pocinha, pegava as crianças e as levavam embora. A mãe da Vó Graça (pessoa-patrimônio deste dossiê) dizia que havia uma cobra. Lembrando-se dessas travessuras da infância no Desterro, os moradores já idosos dão risadas.
Ainda que na reforma do Convento, em 1989, de acordo com Lacroix (2020, p.169), “o Governo do Estado mandou construir um tanque [cimentado] e um banco de lavar, com cobertura de amianto para melhor conforto das lavadeiras”, os moradores relatam que a Pocinha deixou de existir próximo a década de 1990. À época, durante a realização de uma das etapas do Projeto Reviver pelo Governo do estado para a revitalização do Centro Histórico, a Rua da Estrela, localizada atrás do Convento das Mercês, foi pavimentada.
Funcionários do Convento das Mercês atuais explicaram que a poucos anos (sem precisar exatamente) interromperam o fluxo de água porque pessoas em situação de rua estavam usando a antiga pocinha como um tipo de banheiro público, o que acarretava mal cheiro e proliferação de doenças.
Quem passa pelo local no Desterro e vê uma caixa cimentada repleta de lixo, como consta na imagem inicial desta ficha, não imagina o histórico dessa referência cultural, descuidado, é verdade, mas que ainda remete à própria questão de saneamento e fundação de São Luís, denotando laços de sociabilidade e memórias afetivas construídas quando o mar era tão próximo do bairro.