O que é?
A Queimação de Palhinhas é uma das celebrações que compõem as festividades do ciclo natalino, sendo uma tradição católica popular de origem portuguesa, praticada em várias cidades maranhenses (Marques, 2010; Carvalho e Ahlert, 2023). No ritual, desmonta-se o presépio e retira-se as palhas de murta queimadas em um fogareiro, enquanto são cantadas ladainhas em latim e um hino próprio para a queimação. A queima é um momento de pedidos e orações para que se inicie um bom ano. Simbolicamente, quando a murta é queimada, a fumaça simboliza a purificação das pessoas presentes (Figura 33).
No Maranhão, esta celebração é realizada tanto nas casas de fiéis quanto em igrejas e em terreiros de matriz africana. No bairro do Desterro, a Queimação de Palhinhas é praticada há tanto tempo que nem mesmo os moradores mais antigos se recordam da origem desta prática ali. Num mesmo ano e em datas próximas, foi possível registrar a ocorrência da celebração na Igreja do Desterro, na casa de moradores católicos e no Convento das Mercês.
Quando em 1962 se mudou para o Desterro com 7 anos, Joãozinho Ribeiro (ficha deste dossiê) nos disse que a queimação de palhinhas já ocorria há muito tempo no casarão para onde se mudou. “O menino Jesus era erguido dia 11 ou 13 de dezembro e desarmado na queimação de palhinhas. Geralmente a queimação de palhinhas ocorre dia 6 de janeiro, dia de Reis, quando se desmonta o presépio”, conta Joãozinho. Entretanto, em sua casa, especificamente, a queimação de palhinha acontecia dia 2 de fevereiro, dia dedicado ao orixá Iemanjá. “A festa durava uma semana, com reza, novena, fartura imensa de comida, com cânticos e música, e uma cantata em latim de uma música chamada Kyriê”, cantada pela voz aguda da tia Josefa, relembra Joãozinho Ribeiro.
Carvalho e Ahlert (2023) também registram a queimação de palhinha no dia 2 de fevereiro na Casa de Nagô, um dos mais antigos terreiros de Tambor de Mina do Maranhão, localizado no Centro, a poucos minutos de distância do Desterro. A celebração foi incorporada ao terreiro em pagação de promessa por uma das vodunsis (integrante da religião que recebe voduns). “Enquanto vivia, ela cumpria seu compromisso no espaço da Casa de Nagô. Depois do seu falecimento, a festa foi incorporada ao calendário litúrgico do local” (Carvalho e Ahlert, 2023, p.02). O que demonstra que, por vezes, a queimação de palhinha, assim como o Tambor de Crioula e o Bumba Meu Boi, podem ser iniciados como forma de agradecimento pela realização de algum pedido concedido pelo plano espiritual - popularmente chamado de “pagação de promessa”.
No Desterro, a queimação de palhinha acontece na casa dos moradores e por organização própria: a primeira queimação é realizada na Catedral da Sé, na sequência na casa do senhor Dalmir Campos, no mesmo dia 6 de janeiro, e depois em diversas outras residências que tenham interesse, seguindo até o final do mês. Cada família escolhe o dia da queimação na sua casa e agenda com a Vó Graça.
Desde 2013 (O Estado do Maranhão, 2015), a celebração da queimação de palhinhas no Desterro também acontece na Fundação da Memória Republicana Brasileira, no prédio do Convento das Mercês, reunindo centenas de fiéis deste e de outros bairros, além de turistas (ver imagem que abre esta ficha). O evento é organizado com encenação de teatro infantil sobre os reis magos, queimação de palhinhas com rezas e ladainhas e apresentação de banda musical. Em 2025 não houve a celebração no Convento das Mercês, mas ocorreu em outros dois equipamentos da Secretaria de Cultura do estado do Maranhão: a Casa de Nhozinho (bairro Praia Grande), de onde seguiu em cortejo até o Cafua das Mercês (bairro do Desterro), onde houve o desmonte do presépio e a queima da murta (SECMA, 2025).
No fim da década de 1970, os centros culturais e museus começaram a assumir a manutenção da tradição da queima de palhinha (O imparcial, 2025). Embora alguns fiéis façam a queimação em suas casas, igrejas, terreiros e centros de cultura, “percebe-se um grande enfraquecimento dessa tradição, inclusive, nos centros culturais, onde elas vinham sendo realizadas com mais regularidade nas últimas décadas” (O Imparcial, 2025). Ainda que enfraquecida, é preciso dizer que a celebração da queimação de palhinha, no Desterro, mantém acesa a fé, o senso comunitário e a memória de se rezar coletivamente, cantar e agradecer os milagres da vida aos pés do menino Jesus na humildade de uma manjedoura de palhas.