espaços públicos de convivência
Onde está?
Rua do Deserto, Rua da Estrela, Rua Jacinto Maia, Rua do Giz (Rua 28 de julho), Rua da Palma, Rua Afonso Pena, Beco do Caela (Rua Maranhão Sobrinho), Rua do Precipício (Rua Carlos Reis), Travessa da Lapa, Travessa Feliz. Praça das Mercês: Av. Senador Vitorino Freire com rua da Estrela; Praça Flor do Samba: Av. Senador Vitorino Freire com Beco do Caela; Praça da Liberdade: Rua Jacinto Maia com a Rua do Giz.
O que é?
As singulares ruas do bairro do Desterro constituem um lugar comum de moradia, trânsito e convivência. As praças, recentemente construídas, também ganham relevância ao serem ponto de encontro para ensaios e apresentações culturais, acolhendo pessoas do bairro e que vêm de outras áreas para habitar o Desterro (Figura 28).
“Porque uma rua está para o bairro / Assim como uma artéria para o coração”, entoa Joãozinho Ribeiro Filho (2006, p.22) no seu livro autobiográfico sobre as paisagens que o constitui, inclusive, as muitas ruas do Desterro. A cartografia da cidade de São Luís na poesia de escritores maranhenses como Joãozinho Ribeiro Filho e Ferreira Gullar “deslizam cenas familiares que se revezam com a paisagem social” na memória urbana da “rua em mim”, como estuda Santos (2021, p.305).
Relatando grande e pequenos acontecimentos, noticiados ou fofocados; das crianças, dos velhos, das putas, bandidos, bêbados e gentes comuns, na poesia de Ribeiro Filho (2006): “Meu canto descobre a Cidade / E a Cidade me descobre / Nos cantos por onde passo / Decifrando suas ruas / E decorando suas ladeiras” (p. 98). “Porque uma rua comporta a história / E as vidas dos seus moradores / Que acontecem diariamente / Dentro das casas, / Dentro dos rostos / Espreitando nas janelas, / Nos cochichos das comadres/ E na apoteose dos bêbados” (Ribeiro FIlho, 2006, p. 28).
Com essas vivências, o livro de poesia “Paisagem feita de tempo” (Ribeiro Filho, 2006) rememora a infância e juventude de Joãozinho no Desterro: “Cidade és minha paisagem / Feita de tempo e de mim / Feita de tudo que somos / E do que seremos, enfim” (p.100). “Esta paisagem também me costura / E costura muitas outras vidas / Dentro da minha própria / E esfrega meu poema / Contra o cais das esperas / De outras vidas que eu trago comigo / E que transformo, / Quando eu canto seus motivos, / Em motivos para continuar vivo” (p.97).
Joãozinho é uma das vozes dos moradores que conta das desigualdades e violências diárias, da boemia na zona do baixo meretrício, das doenças, das festas, das brincadeiras e das ações vividas nas ruas. A escrita brada a vida de um militante político que, vivendo no Desterro, lutava por melhores condições de vida para os trabalhadores e estudantes como na greve da meia passagem em 1978: “17, setembro, e o povo? / A luta ainda continua / Ou ficou no meio da paisagem / Abandonada nas ruas? / E a rebeldia da ilha, / Protocolou-se também?” (Ribeiro Filho, 2006, p.89).
Atualmente, as ruas do Desterro, diferente de outros bairros que formam o Centro Histórico, configuram uma dinâmica social particular: outro ritmo, cores e presença. Mais que veículos, são as pessoas que dão ritmo ao bairro: idosos conversando, crianças brincando, vendedores ambulantes de sorvete atravessando o Desterro com suas caixas nas costas, vendedores ambulantes de bebidas e alimentos empurrando seus carrinhos pelas ruas de pedra, pessoas em situação de rua, turistas, trabalhadores e universitários de instituições públicas que movimentam as ruas durante o dia. Já à noite, a luz amarela de postes baixos sem fiação aparente ilumina as ruas e becos e calçadas de pedra no Desterro, criando uma atmosfera nostálgica nesse bairro tão antigo quanto multifacetado.
Facilmente percorrido a pé, o bairro do Desterro possui uma configuração bem definida, dividindo-se em duas áreas distintas: uma área predominantemente residencial, de casas baixas e casarões ocupadas por famílias ao redor do Convento das Mercês e da Igreja São José do Desterro, e; outra mais comercial, entremeada com vários casarões ocupados por instituições públicas e administrativas, como secretarias, faculdades e museus, além de casarões cedidos à organizações particulares, como o projeto “Adote um casarão”, em funcionamento desde 2019 (Governo do Maranhão, 2022), a partir da Rua Jacinto Maia sentido bairro Praia Grande.
O topônimo das vias do Desterro chama a atenção: Rua do Deserto, Rua da Estrela, Rua Jacinto Maia, Rua do Giz, Rua da Palma, Rua Afonso Pena, Rua Maranhão Sobrinho, Rua do Precipício, Travessa da Lapa, Travessa Feliz. A seguir, discorremos sobre algumas.
A Rua da Estrela se inicia na Travessa Boa Ventura e se encerra na Avenida Senador Vitorino Freire. Situada ao fundo do Convento das Mercês, esta Rua também é chamada de Rua Cândido Mendes - jurista e historiador maranhense Cândido Mendes de Almeida (1818 - 1881), nascido em São Bernardo do Brejo dos Anapurus. Na Rua da Estrela nasceu o escritor Graça Aranha, e também é cenário para uma das personagens do romance “O mulato”, de Aluísio de Azevedo (Vieira Filho, 1971).
Por sua vez, a Rua Jacinto Maia se inicia na Rua da Estrela e vai até a Avenida Magalhães de Almeida. A saber, esse nome homenageia um português que vivia de negócios imobiliários e se tornou uma figura bastante conhecida na área do Centro Histórico na sua época.
Já a Rua do Giz e seus casarões expressa a riqueza obtida com a monocultura do algodão. Por volta da segunda metade do Século XIX, São Luís passou por um grande crescimento econômico, atraindo diversos comerciantes, e essa Rua tornou-se um centro financeiro, com diversas casas bancárias em casarões azulejados. Possivelmente, o topônimo Rua do Giz se deva devido à ladeira de argilas brancas, que deslizava quando chovia, onde hoje está localizada uma escadaria. Tal rua ficou bem mais conhecida após a Revista Vogue, em 2021, classificá-la como a sexta rua mais bonita do Brasil. Originalmente denominada de Ladeira do Giz, iniciava-se na Avenida Maranhense (Dom Pedro II) terminando no Largo das Mercês. Alguns de seus trechos também são conhecidos por Rua dos Bancos e Rua 28 de Julho (Lima, 2007; São Luís, 2005).
A lembrança de se batizar essa artéria com o nome 28 de julho assinala um fato histórico: o imperador Dom Pedro I proclamou a Independência do Brasil em 1822, porém, o Maranhão só assinou a adesão à Independência praticamente um ano depois, em 28 de julho de 1823, e isso devido ao conservadorismo da elite local ludovicense que tinha fortes laços com Portugal. Desde 1964, 28 de julho é feriado estadual no Maranhão (Vieira Filho, 1971).
Singular, a Rua da Palma une dois importantes espaços: inicia-se na Praça Benedito Leite, core administrativo da cidade, com o Palácio dos Leões, e termina no Largo do Desterro, em frente à Igreja São José do Desterro. Essa rua inspira muitos artistas, romancistas, pintores e dramaturgos. Historicamente, já foi nomeada por Rua da Lapa, Rua Luís Domingues e, atualmente recebe o nome oficial de Rua Herculano Parga em homenagem ao governador do Estado do Maranhão (1914-1917). A rua, outrora área de escoamento do antigo Portinho antes do aterramento do Rio Bacanga, guarda a memória pulsante da atividade portuária que fervilhou na área até a década de 1980.
Além das ruas, muitos becos configuram essa parte antiga da cidade. O Beco da Caela, estreito e acidentado, por longo tempo, foi um nojento lamaçal. Seu nome vem de um quitandeiro português que, ao mimar uma criancinha, dizia: “dê cá ela”. O povo excluindo o dê, apelidou o beco de Caela. Embora a Rua Maranhão Sobrinho seja a denominação oficial desde 1924, em homenagem ao poeta maranhense por meio de lei municipal, a história da toponímia “Beco do Caela” guarda um tom peculiar e divertido (Lima, 2007).
O Beco do Precipício se inicia no Largo do Desterro e termina na rua Afonso Pena. O seu atual nome oficial (Rua Carlos Reis) homenageia o filho do Coronel Luís Antônio dos Reis e da Ursulina Neomesia Soares Reis. O Beco do Precipício já aparecia assim denominado em registros de 1963, quando desembocava na Praia do Desterro, íngreme e desafiante para os trabalhadores apressados que carregavam pescado e outras mercadorias (Vieira Filho, 1971).
A Travessa Feliz ou Beco Feliz, com formato próximo a meia lua - inicia na Rua Afonso Pena e termina na Rua do Precipício, e é muito lembrado pelos estabelecimentos relacionados à prostituição (Oliveira, 2018).
Mais recentemente, as praças das Mercês, da Liberdade e da Flor do Samba se somaram aos lugares de socialização no Desterro.
A Praça das Mercês embora seja um logradouro de construção recente, inaugurada em 22 de dezembro de 2020, e, especialmente, a entrega do Monumento à Diáspora em 2023, em parceria entre o IPHAN, prefeitura de São Luís e a empresa Vale, passou a movimentar eventos culturais, roteiros turísticos afrorreferenciados e atividades recorrentes (Costa Filho, 2025).
Localizada entre a Avenida Senador Vitorino Freire e o Convento das Mercês, a Praça das Mercês possui quadra poliesportiva, pista de skate, posto policial integrado à escadaria de acesso ao mirante. Conta com lixeiras e bancos de concreto, postes com ampla iluminação ao redor da praça, embora sem sombra ou estrutura permanente para pequenos comércios. Por ser um espaço amplo, é escolhido para a realização de diversos eventos como, por exemplo, o Festival Zabumbada, que no ano de 2023 teve um público estimado em 52 mil pessoas, prestigiando as 23 atrações culturais, incluindo o Tambor dos Onças (ficha deste dossiê), em um fim de semana. A programação festiva do período do carnaval, do São João e do aniversário da cidade em setembro durante os anos de 2024 e de 2025 também teve palco na Praça das Mercês.
Quando ocorrem tais eventos, muitos dos moradores do Desterro que são trabalhadores informais (vários cadastrados no programa do governo do estado Mais Renda) montam suas barracas e carrinhos ao redor da praça para a comercialização de alimentos e bebidas. As ruas, repletas de veículos estacionados, são observadas por flanelinhas que aproveitam para faturar.
Para Serra (2024, p.3), a Praça das Mercês exerce diversas funções, “Ela não apenas fomenta atividades de lazer e interação social, como contribui para a estética urbana, geração de renda, redução de estigmas sociais e também para manter viva a herança histórica e cultural dos povos africanos no estado do Maranhão”.
A Praça das Mercês está localizada onde outrora fora um ponto de desembarque e comercialização de africanos escravizados que eram redirecionados para outras áreas da capital e do interior do Maranhão. Disso a construção do “Monumento à Diáspora Africana” ser uma obra pública significativa de caráter educativo, formado por oito painéis de artistas negros maranhenses e um outro grande painel como nomes e datas de registros de navios negreiros que ali aportaram.
Além desse espaço de memória, bem próximo dali, existe o Cafua das Mercês - pequeno sobrado com dois pavimentos que servia como depósito de escravizados de Antonio Garret, com fosso e grades onde as mercadorias humanas eram guardadas.
Inaugurado em 1975 como museu, o Cafua das Mercês (Museu do Negro) tem como missão: “adquirir, preservar, conservar objetos e acervos relativos à história e memória da escravidão e da cultura afro brasileira e maranhense, contribuindo para o reconhecimento da nossa diversidade cultural e valorização da matriz cultural africana” (Marques et al, 2020). O terreno baldio localizado ao seu lado foi transformado numa pequena praça: Praça da Liberdade ou Praça Negro Cosme (negro abolicionista, líder da Balaiada, importante movimento pela liberdade no Maranhão no período regencial).
A Praça da Liberdade ou Negro Cosme tem ornamento em alto-relevo as silhuetas de três mulheres negras importantes na história do Maranhão: Catarina Mina, alforriada que empreendeu e obteve sucesso com seu trabalho em plena São Luís do século XVII; Nã Agotimé, fundadora da Casa das Minas do Maranhão, relevante terreiro de culto afro do estado e; Maria Firmina dos Reis, primeira romancista brasileira (Costa Filho, 2025). Esta pracinha divide parede com a Secretaria Municipal de Igualdade Racial e fica bem próxima da Escola de Música Bom Menino, sendo comum os estudantes circularem por ali.
Já a Praça Flor do Samba, também situada às margens da Avenida Senador Vitorino Freire, ganha esse nome devido à escola carnavalesca Flor do Samba. É uma praça bem menor que a das Mercês e pode ser configurada como um largo (espaço aberto sem construção), criada por volta da década de 1980, quando do aterramento do rio Bacanga (Ericeira e Silva, 2005). Contudo, sua movimentação diária é frequente devido aos dois bares-restaurantes situados na Praça e que oferecem sombra e serviços. Ensaios e apresentações de carnaval e Bumba Boi animam esta Praça por vários meses. Ali existe uma pequena arquibancada de metal que a população do Desterro enfeita de acordo com o calendário festivo.
Muitas crianças residentes do Bairro do Desterro, quando questionadas sobre o seu espaço preferido do bairro para ficar, responderam que era a Praça das Mercês - apesar de não oferecer sombra ou parquinho. Já os jovens que participam do Boi Lendas e Magias e da Flor do Samba, especialmente os que não são moradores do Desterro, resumem sua passagem pela Praça da Flor (pequena, mas acolhedora).
Habitar o Desterro consiste em compartilhar das ruas, becos e praças, conversando, brincando, dançando ou articulando planos, projetos e memórias que formam uma identidade cultural muito própria deste lugar.
Voltar para o topo