Dona Sandra
Onde está?
Desterro, São Luís (MA)
O que é?
Sandra Maria Fernandes, a Dona Sandra, 64 anos, é apontada como figura cultural, líder, mobilizadora e organizadora de manifestações culturais no Desterro (Figura 46). No livro “Desterro: um bairro além dos mapas” (São Luís, 2005), destaca-se a contribuição que ela exerce quanto à preservação do patrimônio cultural intangível do bairro. Ao ser convidada para participar desse dossiê na categoria pessoa-patrimônio, dada ser uma referência constantemente citada no Desterro, nos respondeu: “Uma pessoa que virou azulejo”, rimos juntos, pois ela resumiu a essência da categoria de acordo com a realidade histórica de São Luís - conhecida como “cidade dos azulejos”.
Filha de Eloi Gerônimo e Maria Brigida Fernandes e viúva de Josivaldo Martins, Sandra tem quatro filhos e três netos. “Meus filhos nasceram e se criaram aqui no Desterro, tudo de bom [...] O bairro é muito calmo, hospitaleiro, é muito bom”, ela fala com orgulho. Mesmo com a tranquilidade necessária para se criar a família, ela também chamou a atenção para a efervescência cultural do Desterro: “temos artistas, temos o carnaval, a cultura com o boi, os Onças, as procissões da Igreja do Desterro, a capoeira de Gavião [...] Tudo é coisa antiga aqui”.
Atualmente, Sandra mora no bairro Praia Grande, mas nunca deixou de habitar o Desterro: membra da diretoria, participa da escola de carnaval Flor do Samba há 30 anos e há 25 é responsável por uma das alas da escola; fiel ativa na Igreja do Desterro, participa e ajuda a organizar todos os festejos, sendo uma das noitantes no mês mariano; é cofundadora e vice-diretora do Boi Lendas e Magias; é apoiadora do coletivo Por Elas Empoderadas; há cerca de 20 anos é integrante da União dos Moradores do Centro Histórico (Desterro, Praia Grande e Portinho), da qual foi presidente por dois mandatos (2003 -2004 e 2005 - 2006).
“É muito trabalho, canseira e preocupação, mas a gente faz para ajudar”, afirma dona Sandra, aparentemente sempre ativa. De outubro até fevereiro, Sandra está envolvida com o carnaval, trabalho intenso com a Flor do Samba, especialmente quando da produção intensiva de sua ala. Depois, em março, vem a seleção e início dos ensaios do Boi, se estendendo até agosto, praticamente. Setembro é o mês de aniversário de São Luís, com várias festividades; dezembro o ciclo natalino também é agitado. Nesse ínterim, ocorrem festejos religiosos, reunião dos moradores e outras demandas.
Dona Sandra relembra quando “Antigamente era só o pessoal do bairro [na Flor e no Boi]. Agora é gente de fora também”, de como as pessoas se ajudavam internamente com o que tinham para fazer o carnaval acontecer e fundar o boi. Se hoje essas expressões culturais são reconhecidas e bem quistas com lugares já estabelecidos e muitas pessoas envolvidas, muito se deve a esse núcleo fundador de moradores do Desterro que acreditaram, apoiaram e participaram do início desses movimentos culturais.
“Hoje a pessoa se interessa mais pelo celular, do que fazer a sua própria história. O celular acaba muito com a infância”, critica dona Sandra. De sua infância, na década de 1970 no Desterro, conta: “eu jogava Peteca, bolinha de gude, campão (amarelinha) e [brincava com] boneca de pano” feita por sua mãe - antes tinha muita costureira no bairro do Desterro que fazia bonecas.
Sobre as transformações das paisagens do Desterro, Sandra rememora que onde atualmente é a Praça das Mercês já funcionou um comércio chamado Ilhas das Miudezas, depois a brinquedolândia e, por fim, a fábrica Oleama. Sobre esta área, dona Sandra quis falar do evento “Vale festejar: São João nas Férias”, iniciado em 2024 no Convento das Mercês - projeto promovido pela Fundação da Memória Republicana Brasileira (FMRB), por meio da Lei de Incentivo à Cultura, com patrocínio do Governo do Maranhão e de outros apoiadores -, os moradores se organizaram para limpar o terreno que estava abandonado e fizeram uma espécie estacionamento como meio de as pessoas do Desterro ganharem uma renda extra cobrando uma taxa. “O Vale Festejar era povão mesmo, muita gente, porque vinha muito boi pra cá”. Anos depois, na inauguração do Monumento a Diáspora, em 2023, “o prefeito disse que tudo seria mais voltado pra aquilo ali”, e realmente se percebe que a Praça das Mercês vem sendo utilizada para diversos eventos e atividades que reconfiguraram esse espaço como eixo cultural em consolidação na capital.
“Quando eu era criança, não tinha os arraiais que tem hoje. Era tradição brincar na feira da Praia Grande, e bem em frente se apresentava o Boi de Axixá. Outros bois que existem, mas a gente não ouve mais tanto falar, é o Boi do Barbosa, um dos mais velhos daqui, e o Boi de Rosário” - de sotaque de orquestra. “Hoje tem tanto boi que a gente até cansa de ver. Eu gosto de todos. Mas o Lendas e Magias a gente tem amor”, comenta dona Sandra a respeito do boi que é cofundadora no Desterro.“Tem minha neta que começou com sete anos no Lendas e hoje ela tem 23. É muito orgulho do trabalho que a gente desenvolveu, no começo nosso boi era pequeno e foi muito criticado. Hoje temos 122 componentes. Nasceu, cresceu e se enraizou praticamente. Quando acontece o Itinerante a gente não consegue nem andar na praça [das Mercês] de tanta gente que vem prestigiar os bois”.
Não apenas nos grandes eventos, mas no cotidiano e vivência intracomunitária, Sandra comenta como as manifestações culturais são bem recebidas no Desterro e fazem o bairro ter alma: “Esse boi [Lendas e Magias] conquistou a comunidade. Porque é todo mundo quieto em casa, mas quando o boi vai brincar, Ave Maria, todo mundo desce, é um divertimento quando tem atividade na Praça da Flor do Samba”.
Funcionária pública há 25 anos na FUMPH, dona Sandra fez muitas parcerias com instituições públicas e privadas quando foi presidente da Associação de Moradores do Centro Histórico e ajudou a desenvolver diversos projetos no bairro do Desterro. “Antes eles tinham dificuldade em fazer alguns trabalhos na comunidade [...], e como a gente não faz nada sem parcerias, tudo é gasto, conseguimos muitas coisas para o Desterro”, comenta ela a respeito da importância de se efetivar projetos em parceria com o território e instituições financiadoras. Sandra cita, por exemplo, o projeto Viver o Desterro voltado à educação patrimonial com crianças, com apoio do IPHAN/FUMPH, e os cursos oferecidos pelo SEBRAE para profissionalização de jovens e adultos do Desterro: “Só de comidas típicas maranhenses foram uns três cursos, depois chegamos a formar uma cooperativa de tanto que aprendemos. A dona Maria da Graça foi presidente da cooperativa de mulheres”.
Soares (2010) faz uma interpretação dos projetos de educação patrimonial realizados no Desterro organizados pela FUMPH com a Associação dos Moradores entre 2004 e 2006, e Chaves (2012) continua expondo detalhadamente alguns dos resultados, interesses e conflitos envolvidos. Tanto essas dissertações acadêmicas, quanto alguns dos moradores do Desterro ouvidos no dossiê concordam quanto a lamentável falta de continuidade dos projetos e questionam algumas metodologias adotadas em que o conceito de patrimônio e suas referências históricas e culturais já vinham prontas em cartilhas, reclamando ainda por não haver transformações efetivas na vida das pessoas que viviam esses patrimônios - especialmente no âmbito socioeconômico a médio e longo prazo.
Sandra e Dalmir Campos contam como era bom proporcionar atividades para as crianças e idosos - em suas falas percebemos que a justificativa não é exatamente pelo patrimônio em si, mas por ter políticas públicas básicas de apoio a um bairro em que muitas famílias vivem a insegurança alimentar, maus tratos, baixa escolaridade e poucas oportunidades de formação educacional e profissional de qualidade.
“Quando eu fui presidente da União de Moradores, eu fazia muito Serenata dos Amores. A gente saía pelas ruas contando as histórias do bairro, foi pensado por Joãozinho Ribeiro, artista daqui. Aquele povo antigo acompanhando a serenata à noite era bonito demais”. Outra atividade que ela se envolveu diz respeito a peça teatral de Dalmir Campos: “Tinha a personagem Ana Jansen, a baronesa de Grajaú [...] , retratava também as pessoas que já se foram do bairro e dessa vida em forma de homenagem, como o seu Abílio, que era um dos moradores mais velhos e a vendedora de tamanco, dona Leocádia”.
Além das ações culturais, Sandra sempre destaca, simultaneamente, a questão econômica: “A Zabumbada é um projeto que surgiu ano passado [2022], na Praça das Mercês, vai ter vários shows e uma porção de boi. Para o comércio informal, gera renda para o povo que mora aqui no Centro Histórico. A gente pensa assim: Centro Histórico é sempre bairro rico. Não! Existe a carência. Muita gente vive de trabalho informal. Eu mesma, com meu filho [Josivaldo Júnior], tenho uma mesa de cerveja que complementa a renda do que eu ganho. Se eu não ganhar [na venda de cerveja], eu tenho o meu [salário fixo]. Mas tem gente que não. Por isso, a gente formou a Associação. Eu não trabalho assim mais vendendo cerveja. Fizeram três barracas no evento Zabumbada, que é um evento grandioso. Esse ano [2023] fui sorteada para pôr uma barraca, mas dei a chance para a Jucimara, porque eu já tenho o meu [trabalho/renda fixa], então vou passar para quem precisa mais. A mesma coisa é a Jesus, ela dá até o que não pode. Passa o dia todinho pelos outros. O dia em que ela morrer, acho que o bairro morre. Eu tiro o chapéu para ela”.
Dona Sandra faz questão de enfatizar a necessidade de fazer parcerias e de se engajar na luta coletiva por melhores condições, especialmente para as pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica que vivem no Centro Histórico. Sandra, também, reza, festeja, acolhe e comemora as conquistas em comunidade, o que faz dela uma referência no bairro e que pratica o patrimônio enquanto forma de vida.
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