Serenata dos Amores
Onde está?
Cumpria um itinerário pelas ruas do Desterro alterado a cada edição anual. A finalização se dava, invariavelmente, no Largo do Desterro.
O que é?
A Serenata dos Amores foi um teatro musical itinerante idealizado por Joãozinho Ribeiro (ficha pessoa-patrimônio deste dossiê) e realizado no bairro Desterro em colaboração com artistas locais. A cada edição do evento havia uma temática diferenciada homenageando pessoas, lugares e destacando situações vividas no bairro e na cidade de São Luís (Figura 34).
Realizada em 1999 e 2000 com uma produção mais local, a Serenata dos Amores ganhou grandes proporções e, em 2003 e 2004, devido ao seu sucesso, contou também com a ajuda de instituições externas. Sobre a origem do projeto, Joãozinho recorda: “Eu gostava de tomar uma cerveja no dia de sábado no Cláudio, que chamam aqui carinhosamente de Cadoca. [...]. Eu já tinha feito muitas produções de shows, e um dia, conversando não sei com quem, eu falei: Ah, porque a gente não tenta resgatar umas coisas aqui do Desterro que foram embora?” Então surgiu a Serenata dos Amores. “Como eu tinha uma relação muito boa com vários artistas, o pessoal resolveu fazer sem cobrar nada, era como se fosse um divertimento.”, complementou ele.
O itinerário da Serenata variava a cada edição - “fazia parte da surpresa de cada serenata mostrar histórias de vida diferentes”, relembra Joãozinho. De modo geral, percorriam as ruas do Desterro com performance artística, sendo acompanhado pela plateia, encerrando-se, invariavelmente, no Largo do Desterro, com apresentações voluntárias de artistas convidados e com barracas de venda de bebidas e alimentos. A finalização da Serenata dos Amores no Largo era um momento de congraçamento, no qual as cantorias antigas se sobressaiam, a exemplo de Vicente Celestino e Dalva de Oliveira.
Em 2004, a saber, o itinerário se iniciou no “Jornal Pequeno, percorrendo a Rua Formosa, Beco Feliz e Beco do Precipício, até chegar ao Terraço dos Amores, como foi poeticamente rebatizado o Largo da Igreja do Desterro”. As atrações daquele ano da Serenata foram Fátima Passarinho e Léo Espirro, tendo como convidados especiais Murilo Oliveira (ex-integrante da banda Nonato e seu Conjunto). Já os homenageados do bairro foram a senhora Guiomar, Faustina, o senhor Tonico Santos e os poetas Valdelino Cécio e José Chagas (Zema Ribeiro, 2004).
Em consonância com o Fórum do Desenvolvimento Sustentável do Desterro, Portinho e Praia Grande (2004), a Serenata dos Amores passou a fazer parte da Semana Cultural do Desterro. Na época, houve a criação do troféu “Zé Pequeno”, apelido do falecido proprietário do Jornal Pequeno, considerado pelos moradores um “patrimônio vivo” do bairro. General do Brega era outra figura humana que participou ativamente da Semana Cultural do Desterro. Sobre este último, Joãozinho Ribeiro explica que se tratava “daqueles tipos que quase todas comunidades tem, que é pirado, mas a gente via por outro lado”. Ou seja, o Desterro reconhecia a criação artística de toda qualificação de gente.
No livro “Paisagem feita de tempo” (RIbeiro Filho, 2006), autobiografia poética escrita por Joãozinho Ribeiro, estes personagens são retratados a partir da memória e das vivências do autor no Desterro, o que ele complementou em entrevista: “geralmente, são tipos que a História não contempla. Pessoas que só quem conviveu sabe o que eles faziam, quem eles eram. E, praticamente, tu não vais encontrá-los quase em lugar nenhum de memória. É essa memória que a gente preserva.”
O evento Serenata dos Amores não teve continuidade devido às condições financeiras precárias que impossibilitaram a produção de novas edições. Joãozinho relembra que a Serenata era um movimento artístico no Desterro que nasceu totalmente independente, a partir de doações de pequenos comerciantes locais e do trabalho voluntário dos organizadores e artistas envolvidos. Em duas edições o evento recebeu investimento de instituições externas, e quando estas deixaram de apoiar a Serenata não teve como se manter.
Apesar de a Serenata dos Amores não ser mais realizada no Desterro, muitos moradores mencionam com saudosismo essa peça teatral musical que cantava e encantava as histórias de lugares e personagens do bairro e da cidade. As pessoas da comunidade não só participavam do evento assistindo, mas também ajudavam na organização, a exemplo de Dalmir Campos (ficha deste dossiê), e outros ainda atuavam como personagens do teatro musical itinerante.
O caráter agregador do Desterro se manifesta fortemente nestes eventos culturais e na vida em comunidade que canta, encena, traduz e declara amor aos seus lugares, pessoas e memórias de referências culturais consideradas patrimônio.
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