Tambor de Crioula Os Onças
Onde está?
A sede do Tambor de Crioula Os Onças é na Fábrica de Artes, Rua da Estrela, n.600, Desterro. Mas é comum o grupo ensaiar e se apresentar em outros espaços do bairro, como na Praça das Mercês, na Praça Flor do Samba e no Largo do Desterro, bem como em outros pontos da cidade.
O que é?
Ativo desde 2015, o Tambor de Crioula Os Onças (Figura 39) é fruto de uma tentativa de atrair a comunidade do Desterro e Portinho para participar de atividades culturais. Com apoio de Humberto Jorge de Melo e Silva, líder dos Caras de Onça, José Domingos Lindozo Filho, conhecido por José Preguinho, convidou amigos que já participavam do tambor de crioula para fazerem apresentações e oficinas no bairro. Atualmente, o Tambor Os Onças tem sede na Fábrica de Artes (ficha deste dossiê), e possui cerca de 35 integrantes (20 mulheres e 15 homens) que se apresentam neste que é um tambor de promessa e obrigação a São Benedito.
Sobre o histórico de formação do Tambor no Desterro, em 2015, José Preguinho, Mestre responsável pelo Tambor Os Onças há mais de dez anos, relembra: “No começo, a comunidade não gostava muito. Eu já vim de outra vivência: o pai da minha mãe era cantador de Tambor, tambozeiro, de dentro do Sindicato dos Arrumadores. Então já vem no sangue essa didática que a gente tem [pra ensinar], esse axé com o Tambor de Crioula, com o Divino Espírito Santo, com a Mina” (Associação Cultural Os Caras de Onça, 2020).
“Mestre Barrabás me falava: Preguinho, tu tem que fazer a sua comunidade gostar. Porque como a minha comunidade não gostava, eu tinha que falar com amigos de fora, o Mestre Cascão, Manoel, o Ivan, o Mestre Barrabás mesmo, que vinha para minha comunidade para me ajudar a mostrar para os jovens e ver, observar e sentir a vibração de um tambor grande, de um meião, um criador, uma matraca, um couro”, afirma Preguinho em entrevista à Associação Cultural Os Caras de Onça (2020).
“No começo as pessoas diziam ‘isso é coisa de macumba’, e meu filho dizia: ‘vocês estão errados, isso é da cultura maranhense, axé é uma coisa e tambor [de crioula] é outra. Aí, vendo, as pessoas foram começando a chegar e gostar. No começo vinha gente de fora para nos auxiliar na roda. Hoje em dia, nós já temos nossas coreiras e coreiros da comunidade [do bairro do Desterro e arredores]. Se vem gente de fora, é porque gosta e a gente abraça quem chega”, esclarece Vó Graça (Associação Cultural Os Caras de Onça, 2020).
Desde muito cedo, por incentivo familiar, José Preguinho viveu as culturas populares maranhenses e frequentava encontros e oficinas: ainda menino, com 12 anos de idade, comenta que aprendeu muito sobre o Tambor de Crioula com o Mestre Roxo e Mestre Lázaro, que faziam oficinas no Sindicato dos Arrumadores. Também diz ter aprendido muito com os mestres Barrabás, Cascão, Mata Onça, Wanderlei e os já finados mestre Pau Rachado, Alex e Xico. Os ritmos de Escola de Samba, Preguinho aprendeu com Mestres Bi, Dudu Falcão, Mestre Gute e o finado Mestre Curió, entre outros, quando entrou na Flor do Samba com dez anos de idade.
Alguns desses mestres continuam fortalecendo o Tambor Os Onças, como o Mestre Roxo e o Mestre Lázaro, que participaram de vários eventos organizados pelo Tambor dos Onças após a retomada da Fábrica de Artes no Desterro no ano de 2025. No início, a parelha de tambores usada era emprestada da Associação dos Arrumadores, depois, com o investimento de Humberto Jorge, Mestre Barrabás fez a primeira parelha para Os Caras de Onça, que é a mesma com que tocam até hoje.
Para os jovens que participam das apresentações do Tambor de Crioula com cachê, pontua o Mestre Prego: “é possível com cultura levar o pão pra dentro casa, ajudar seus pais. Tem muita mãe que nos agradece”. Contudo, essa liderança tão importante e respeitada no Desterro reitera que gostaria que o financiamento não fosse apenas no período do São João, é necessário manter o trabalho no ano inteiro.
Sobre o Tambor de Crioula (Ferretti, 2002; 2014; IPHAN, 2016), “Cada elemento importa: desde o fazimento da fogueira, o pedido de benção e referência a São Benedito, a abertura e o fechamento do tambor, o toque, a punga, a vestimenta, tudo isso feito com muito respeito, humildade e pé no chão!”, pontua Preguinho.
“Ô onça vem tomar conta do que é teu! / Foi Deus e São Benedito / Foi eles quem me deu!”, entoa a cantoria de Mestre Prego que, junto com sua mãe, Maria da Graça (Vó Graça), são os compositores do Tambor e, assim, continuam o legado de uma das tradições culturais mais significativas da cultura maranhense.
Outro integrante de referência é Romildo Sousa Júnior, conhecido como Bigorna, que já morou no Desterro e desde o ano 2019 participa do Tambor como coreiro, sendo integrante ativo da diretoria da Fábrica de Artes. Músico de formação na Escola Bom Menino e graduado na UFMA, Bigorna é um dos integrantes que sempre contextualiza as dimensões simbólicas de divertimento e de religiosidade do Tambor de Crioula. Esta manifestação possui características atrelados aos territórios de onde se originam, daí a importância de se conhecer bem a história de formação de cada grupo.
Karlany Raquel, coreira, oficineira e integrante da diretoria da Associação Cultural Os Caras de Onça desde o ano de 2015, foi uma das primeiras a dançar Tambor em encontros que os Caras de Onça faziam na Escola Flor do Samba. “É gratificante ensinar a criançada, da forma que eu aprendi estou passando. Eu tenho orgulho e faço o que eu gosto, que é o Tambor de Crioula. Fico feliz de ver o desempenho delas em aprender e dançar da forma como se entra na roda, como se sai, do gingado, do bailado [...] ” (Associação Cultural Os Caras de Onça, 2020).
Bruna Araújo é uma das diretoras da Fábrica de Artes e coreira no Tambor dos Onças. Começou a frequentar a Fábrica quando ainda era uma ocupação em frente ao prédio em que morava com a família na época. “Eu via a movimentação, mas não conhecia o tambor de crioula ou outras espiritualidades, para mim era só a Igreja do Desterro”. Foi quando começou a namorar com o mestre Prego, atual esposo, que Bruna começou a se envolver mais e se encantou quando se deu conta das ações sociais que a Fábrica desenvolvia. “Eu comecei a dançar porque tinha faltado coreiras, depois fui gostando e comecei a participar de tudo: do tambor de crioula, do touro dominador, e o que mais me pegou aqui dentro da Fábrica foram as festividades religiosas. Fui descobrir aqui a minha espiritualidade, com São Benedito, Santo Antônio, São Jorge [...] a Fábrica de Artes é como se fosse o Teatro das Memórias da época que se acabou, porque é muito parecido, falava das lendas, tinha turma pela manhã e turma pela tarde. A gente aprendia muito”, comenta Bruna sobre um dos projetos de educação patrimonial que foram realizados no Desterro em 2005.
“Nosso objetivo é ter um espaço que os jovens possam participar e que as pessoas saibam que no Desterro tem uma associação cultural que tem oficinas, que tem ações culturais e eventos. A gente já está aqui há seis anos nessa luta com os jovens e, hoje, ver que os meninos que eu vi criança e já estão maiores do que eu, que passaram pela Fábrica, já passaram pela Flor, pelo Boi e hoje estão se formando, estão em um bom caminho, isso é muito bom! Antigamente era muito comum isso dos jovens estarem envolvidos com briga, com droga, nos cantos. Hoje em dia, o pessoal da minha idade a gente não vê mais nessa situação, ou seja, conseguiram ter outras oportunidades”, conclui Bruna, discorrendo sobre a transformação na vida de muitas pessoas a partir do trabalho cultural, especialmente do Tambor de Crioula Os Onças.
Voltar para o topo