O que é?
A Família Operária é uma forma de expressão ligada à cultura do trabalho fabril, resultado da inserção de grande parte dos membros de uma família ou núcleo familiar no trabalho nas fábricas. Segundo Paoli (1992), p. 30,
[...] a família aparece como um dos princípios necessários para a viabilidade da proletarização que o capital industrial empreende e da qual depende; isto põe em jogo sua constituição na medida que, em todos os casos, é este coletivo genético, cultural e social que viabiliza a formação de uma classe social.
Ainda, a família operária representava, por um lado, a dignidade do trabalhador, aparecendo como uma referência positiva diante da precarização das condições de vida do trabalhador, e, por outro, uma instância de controle das fábricas e do capital industrial sobre os operários, através da instrumentalização da organização familiar desses trabalhadores (Paoli, 1992). Isso trazia diversas consequências, como por exemplo o pagamento de salários para o pai, como “chefe da família”, e as punições coletivas, quando a resistência ao mando fabril por parte de um dos membros da família acarretava na dispensa dos outros.
Paoli (1992, p. 34) salienta ainda que é com a instituição do salário mínimo, em 1940, que foi consolidado o processo de proletarização familiar, uma vez que esses salários apenas validaram os níveis salariais mais baixos existentes no Brasil. Dessa forma, se tornou impossível para um trabalhador adulto manter sua família com essa remuneração, o que obrigou que todos os membros da família passassem a trabalhar. Nota-se que a promulgação do salário mínimo, assim, como ocorria anteriormente nas fábricas, reafirmou os papéis tradicionais de gênero dentro da família nuclear, ao discriminar as condições de pagamento para os diferentes trabalhadores urbanos:
Os empregados domésticos (em geral mulheres) foram excluídos de seus benefícios, bem como os que trabalhavam em oficinas familiares (em geral mulheres e crianças). Os trabalhadores menores recebiam metade do montante mínimo fixado na lei. E, finalmente, um decreto do mesmo ano de 1940 permitia reduzir 10% do salário mínimo devido às mulheres trabalhadoras, exatamente com base no argumento de que sendo trabalhadoras privilegiadas, eram onerosas para as fábricas (Paoli, 1992, p. 35).
Dessa forma, é necessário ressaltar também a importância da casa operária, a materialização da família, locus da reprodução da força de trabalho e também onde as famílias constroem seu mundo próprio (Woortmann, 2018).
A criação do sentido de família na Fábrica São Martinho também decorre das experiências em comum dos familiares nas fábricas, inclusive além do trabalho, como a presença em missas e festas da fábrica, fazendo com que grande parte da vida dos familiares girasse em torno das atividades fabris. É comum que várias gerações de uma família tenham trabalhado na Fábrica, e mesmo aqueles que não trabalhavam, como crianças, também relatam memórias em torno da fábrica, como brincar na fábrica enquanto pais trabalhavam, jogar bola na praça da fábrica, ir pagar aluguel na fábrica, etc. A vivência da infância ao redor da Fábrica levava ao sonho da criança de um dia trabalhar ali, como seus pais.
O sentimento de gratidão à São Martinho por ter garantido o sustento da família por gerações também é presente, conformes relatos a seguir:
[...] eu entrei em 75, mas as caldeiras fez [sic] parte da minha também infância e juventude [...] porque me vem na memória, de criança pra adolescência, o meu avô contando: que calor', ‘to cansado o que eu tenho é uma gratidão gigantesca de vir de uma família operária que trouxe sustento pra nossa família (Oficina Participativa em novembro de 2023).
Na Oficina Participativa e nas entrevistas do Festival Vozes realizadas em 2023, o sentido de “família” é usualmente relacionado aos laços afetivos entre os próprios trabalhadores da fábrica, responsáveis pelo bom clima de trabalho e por uma rede de apoio:
[...] o ciclo de amizade era em torno das pessoas que a gente trabalhava [sic], a gente saía pra passear no final de semana todos juntos [...] [...] a gente brincava, entrava lá dentro pra brincar, se escondia, brincava de esconde-esconde, com os pais trabalhando, chutava bola, caía bola, ia pegar lá. (Oficina Participativa em novembro de 2023).