O que é?
A paisagem sonora da Fábrica São Martinho foi indicada por meio de lembranças trazidas pelos participantes nas escutas realizadas durante as oficinas e entrevistas do projeto. Foram identificadas muitas sonoridades do espaço como o apito da fábrica, a sirene e o som do sino, revelando que o processo fabril propicia a constituição de uma paisagem sonora com seus ritmos próprios incorporando, ações cotidianas como a entrada e saída dos turnos de trabalho, o horário das refeições e outras atividades rotineiras dos moradores do entorno.
O senhor Gedel Floriano de Oliveira, que trabalhou na fábrica no período de 1987 a 1990, conta que “deitava e dormia com o barulho pá pá pá na cabeça” referindo-se ao barulho das máquinas e, também, que “o sino do relógio tocava de hora em hora, você não precisava nem ter relógio”.
Esses sons expressavam o ritmo do cotidiano e do trabalho. Segundo Raymond Murray Schafer (2001 apud Ferreira, 2023) a paisagem sonora “se define pela composition de sons e ruídos que formatam nossa percepção do lugar numa concepção macrocósmica”.
Noel Rosa, em 1933 compôs “Três apitos” e ,poeticamente, relaciona seu cotidiano na fábrica com o relacionamento com sua amada evidenciando essa percepção dos sons nas diferentes dimensões da vida.
Ecléa Bosi(1994),em brilhante trabalho sobre as memórias de moradores e da história social da cidade de São Paulo identifica em sua pesquisa a importância de sons do “espaço sonoro compartilhado” que “(...) é um bem comum, mesmo os diminutos sinais que compõem suas mensagens são vitais para seus habitantes.” A autora diz ainda que “sons que desaparecem, que voltam, formam o ambiente acústico dos bairros. As pedras da cidade, enquanto permanecem, sustentam a memória.”