Vila Operária São Martinho
Onde está?
Rua Nhonhô da Botica, 52 a 308; Rua José Bonifácio, 28 a 90
O que é?
A vila operária da Fábrica São Martinho, construída entre as décadas de 1920 e 1930, não se caracteriza como um modelo de vila fechada ou anexa à empresa, mas se estende pelas ruas do entorno imediato do complexo fabril. As residências abrigavam predominantemente famílias de trabalhadores qualificados, muitos ocupando posições estratégicas dentro da fábrica.
Composta por seis conjuntos de casas geminadas, suas construções possuem diferentes tipologias, porém todas térreas, com porões não habitáveis, erguidas em tijolo e madeira, algumas ainda com paredes em taipa.
Em sua obra “Patrimônio Industrial e Agroindustrial no Brasil: a forma e a arquitetura dos conjuntos residenciais”, Telma de Barros Correia analisa o surgimento e a estruturação das políticas habitacionais no contexto industrial brasileiro. A autora remonta o início dessa prática, no Brasil, aos engenhos de açúcar coloniais, onde patrões forneciam alojamentos a seus empregados. A evolução desse sistema de fornecimento de moradia adentra o período industrial, intensificando-se no final do século XIX e ao longo da primeira metade do século XX, momento de um surto de crescimento urbano no país, no qual aparecem diversas alternativas de provimento habitacional à crescente classe trabalhadora (CORREIA, 2010).
As novas tipologias arquitetônicas proporcionadas pelas habitações operárias baseavam-se na economia, racionalidade e salubridade, com arquiteturas de maior sobriedade. Em outro trabalho, Correia analisa a maneira como as vilas operárias passam a ser entendidas no contexto social urbano da época, pois, mesmo sendo um tipo de moradia voltada a classes mais baixas, operárias, eram vistas e associadas a habitações decentes e de boa qualidade:
“As “vilas operárias” definiam-se como um padrão de moradia popular oposto à favela, ao mocambo e ao cortiço, supondo ordem, higiene e decência. O termo sugeria casas salubres e dotadas de ordem espacial interna, que se distinguia da falta de higiene, de espaço e de conforto atribuída às casas dos pobres urbano. Também sugeria casas de famílias de trabalhadores estáveis, em oposição às misturas entre estes últimos e os indivíduos afastados dos empregos regulares (autônomos, vadios, prostitutas etc.)” (CORREIA, 1998)
Ana Beatriz Pahor Pereira da Costa desenvolve estudos que abordam o entendimento das vilas operárias de forma mais ampla, sendo essas um “conjunto de casas operárias, construídas de forma seriada, seguindo um certo padrão” (COSTA, 2018). Segundo ela, nem todas as casas de uma mesma vila seriam idênticas, mas possuiriam alguma repetição de tipos, situação que pode ser notada no conjunto de casas da Vila Operária São Martinho.
A proximidade física das moradias, com portas e janelas voltadas diretamente para a rua, fomentava relações intensas entre os moradores. Adultos e crianças compartilhavam livremente o espaço, nutrindo uma atmosfera de familiaridade e confiança. O dia a dia dessas famílias era inseparável da rotina da fábrica e dos sons que ela emitia. O ruído das máquinas, operando dia e noite, era uma constante no cotidiano das famílias, assim como os sinos que pontuavam as trocas de turnos e os horários das refeições.
As lembranças dos momentos de entrada e saída dos trabalhadores são vivas nas memórias dos que ali viveram, como contou a entrevistada Maria Aparecida Kershaw Machado, que ainda guarda a imagem das operárias saindo da fábrica em grupo no final de seus turnos, com pedaços de algodão grudados em suas roupas e cabelos.
Com relação às casas, alguns problemas foram apontados, principalmente ligados às questões de salubridade, à disposição dos cômodos e à escassez de janelas, o que fazia com que as residências não tivessem um ambiente particularmente saudável, contribuindo para problemas respiratórios, sobretudo entre as crianças.
A constante movimentação das ruas ao redor da fábrica, marcada pelo apito que anunciava os horários, criava um ambiente vibrante e agitado, onde as relações se estabeleciam com facilidade. As famílias dos trabalhadores se conheciam, criavam relações íntimas entre si e com aqueles que todos os dias faziam os trajetos de entrada e saída da fábrica.
Atualmente, as casas ainda abrigam famílias locatárias, não mais necessariamente ligadas aos antigos operários.
Voltar para o topo